Sonhar com Leões: um filme com uma mensagem desconfortável

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Por Marcelo Minka

Grande parte do país está comemorando a tão aguardada condenação, mas o momento mundial é desconfortável. Assassinato e um pé na guerra civil definem os USA agora. E o texto da semana analisa um filme que não fala diretamente de política, mas de desconforto. Sonhar com Leões, do cineasta luso-grego Paolo Marinou-Blanco (Goodnight Irene, 2008), chega num momento em que discutir o fim da vida deixa de ser tabu para se tornar urgência.

Gilda, interpretada por Denise Fraga (Hoje, 2011) é uma imigrante brasileira em Lisboa, que tem uma doença terminal e decide que sua última grande batalha será a de manter sua dignidade ao morrer, mas segundo seus termos. Ao seu lado está Amadeu, interpretado por João Nunes Monteiro (Mosquito, 2020), jovem agente funerário também terminal, nesta tragicomédia que mistura com elegância humor mórbido, crítica social e filosofia de vida.

A proposta do filme é audaciosa, uma empresa privada chamada Joy Transition International se oferece para facilitar uma “transição” da vida para a morte, com consultores, pacotes motivacionais e discursos corporativos. Essa mercantilização da morte, tão crítica ao excesso de burocracia, ao capitalismo da dor, é um dos aspectos mais fortes do filme.

Marinou-Blanco lida com o desequilíbrio tonal com coragem: nas mãos erradas, a mistura entre riso e tragédia poderia soar dissonante. Mas há momentos de pura sensibilidade, em que o humor cede espaço à vulnerabilidade, quando Gilda convive com o luto, com o desespero, com a necessidade de escolher. Ainda assim, a partir da metade do filme, há uma tendência a perder o ritmo: as quebras da quarta parede diminuem, o humor institucionalizado, o da empresa, dos discursos motivacionais, torna-se repetitivo.

Sonhar com Leões não é um filme confortável e vem dividindo as opiniões. É um chamado para pensar
Fotos: Divulgação

Denise Fraga sustenta o filme

A atuação de Fraga é esse fio que sustenta tudo. De sua Gilda sentimos o desgaste, o humor ácido, a ternura; acreditamos nela. João Nunes Monteiro como Amadeu também oferece uma presença comovente, ainda que menos contundente do que a protagonista. O filme tem gerado comentários positivos, embora polarizados, como quase tudo neste mundo, pelos mesmos elementos que ele decide explorar: a eutanásia, a morte assistida, o direito de morrer com dignidade. Críticos elogiam a atuação de Fraga, destacam a coragem temática e o humor negro delicado.

Este não é um filme confortável, e isso já é seu triunfo. Ele exige que o espectador se coloque na posição de perguntar: “até onde vai meu direito de escolher meu fim?”, “que peso a sociedade, a moral, as normas, colocam sobre isso?” Apesar dos erros com repetições ou sentimentalismos, há acertos quando o diretor deixa de lado o clichê e personifica o medo, a vontade, a exaustão. É uma obra que organiza poesia na beira do abismo. Vidas brasileiras, escolhas humanas. Não é entretenimento leve; é um chamado para pensar.

O gesto central da mensagem ecoa com força, onde a privatização avança sobre cada esfera da vida, do transporte ao saneamento, da educação à saúde. A mercantilização da morte no filme não é ficção distante, é metáfora de um país em que o sofrimento já se tornou ativo financeiro e em que a dignidade é tratada como produto de luxo. Quando a eutanásia é transformada em serviço corporativo, o que se denuncia não é apenas o direito de morrer, mas o sequestro neoliberal do direito de existir.

Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka e @m_minka_jewelry

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