Entre malas, livros e a mobilidade artística brasileira

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Por Edra Moraes

Quando o caso de sucesso é a própria caminhada

Na semana passada, iniciei o que seria uma série de casos de sucesso na economia criativa. Convidei leitores, amigos e artistas cujo trabalho admiro profundamente. Mas, como tantos de nós, todos estão correndo contra prazos e múltiplos projetos. A entrevista que eu traria para você hoje ficou para uma próxima.

Enquanto os convidados não chegam, compartilho com você uma trajetória que também considero um caso de sucesso na economia criativa: a minha.

Neste domingo, parto para Portugal. Visitarei algumas cidades e, em seguida, cumprirei uma residência artística no LAC — Laboratório de Artes Criativas, em Lagos. Também participarei da Feira do Livro de Lagos. Em ambos os espaços, levo a exposição As Lavadeiras e lanço os livros As Lavadeiras e Sem Alarde, os Poemas Sangram.

Essa viagem, claro, é uma conquista pessoal. Mas não a vejo apenas como um feito individual. Ela me faz refletir sobre o que significa romper bolhas regionais, atravessar fronteiras, simbólicas e geográficas, e buscar visibilidade em um cenário cultural que nem sempre abre espaço para o que é plural, diverso e distante dos grandes centros.

A arte pede risco, mas os editais pedem perfeição. Não parece haver diálogo entre linguagens

A mobilidade artística brasileira ainda é uma travessia solitária. Os dados são escassos, mas reveladores: faltam residências artísticas estruturadas no Brasil; a circulação de artistas em circuitos nacionais ainda é restrita aos de sucesso midiático; e as políticas de apoio à exportação cultural seguem frágeis ou inexistentes. Diante disso, muitos artistas precisam migrar usando recursos próprios, muito improviso e resiliência, para não perder oportunidade, de visibilidade e reconhecimento, essencial para qualquer carreira.

É preciso dizer: quando o artista sai, não é só ele que viaja. Viajam junto a linguagem, o território, o sotaque, a memória. Exportar arte é exportar identidade e isso não pode continuar sendo um esforço individual, uma vez que seus frutos beneficiam coletivamente.

É claro que existem editais voltados à mobilidade artística, mas o cenário atual é desanimador. O edital nacional está parado, não consegui sequer informações e o estadual teve linha de corte em 9,5. Praticamente inviável para qualquer projeto que não fosse perfeito.

Meu projeto tirou nota 9,3. Apesar de se tratar de uma bolsa (sem necessidade de prestação de contas), o parecerista considerou que a rubrica “compra de material para instalação” caracterizava produção, o que me fez perder 6 pontos. O projeto estava detalhado, com anexos completos, e, mesmo assim, o recurso apresentado não foi aceito. Perdi também outro ponto porque o parecerista não viu relevância no meu projeto para o Paraná, mesmo com todas as contrapartidas sendo realizadas no estado.

Foram pontos frágeis na avaliação: apenas um avaliador, texto com aparência de IA e inconsistência nos critérios. Mesmo apontando erro evidente, o recurso foi recusado.

Seguimos. Desde a aprovação do projeto pela LAC, venho me preparando para essa viagem. E sigo acreditando que nenhum de nós merece construir sua carreira apenas com base em editais ainda que eles sejam necessários.

Quantas ideias ficam pelo caminho porque o formulário falou mais alto que o conceito?

Parto para Portugal para uma residência artística no LAC, uma conquista pessoal e sem apoio. A mobilidade da arte ainda é uma travessia solitária
Fotos: LAC

Enquanto essa estrutura não se fortalece, seguimos construindo pontes. Às vezes com papel, tecido, poesia e persistência.

O projeto da residência se chama “Eu dei um beijo na boca da loucura e as estrelas afiaram a minha língua”. Durante 45 dias, visitarei museus, revirarei documentos e buscarei referências sobre D. Maria I — rainha dos Reinos Unidos de Portugal, Brasil e Algarve. Uma senhora de feitos notáveis, amada por seu povo, que a apelidou de “a piedosa”, mas que entrou para a história como a rainha louca.

Neste projeto, investigo e utilizo a loucura como inspiração — tantas vezes instrumento de deslegitimação da palavra da mulher; tantas vezes diagnóstico conveniente para conforto alheio; tantas outras, uma experiência pessoal e um direito de dizer “não” à normalidade.

Não há como antecipar os resultados quando o motor é a criatividade. O que posso prometer não é o produto, mas o processo: cada museu, cada documento, cada verso, cada instalação será compartilhado aqui nesta coluna e nas redes sociais.

Se este for um dos poucos casos de sucesso desta série, que ao menos ele abra portas para muitos outros.

Nos vemos nas próximas colunas. Acompanhe por aqui.

Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa. Prêmios:  Obras Literárias Digitais 2020“Antologia Poética | Seleção da AutoraMemorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura UnesparCultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020.

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