Nadar contra a corrente

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Por Ângela Diana

Antes de mais nada, devo deixar claro que O LONDRINE̅NSE não tem nada a ver com a opinião que vou dar aqui, na coluna, ok?

Pois bem! Uns tempos atrás, eu estava pensando que ser artista é NADAR CONTRA A CORRENTE, porque só “peixe morto nada à favor”(licença poética).

Estava eu, na minha insônia, procurando alguma coisa pra assistir e deu na telha  assistir The Chosen… Eu não havia lido nada sobre a série, nem visto nada! Simplesmente escolhi, coloquei como favorita para ver depois e ela ficou ali, igual aqueles livros que a gente esquece na prateleira.

Logo de cara, a abertura dos peixes em que começam a nadar contra a corrente…. Falei com meu pijama “uia! Olha só ISSO! Fizeram uma abertura que tem tudo a ver com a ideia de não ser TODO MUNDO”! Arrumei os travesseiros, me cobri (todo mundo dormindo quietinhos em casa) e ACHEI que estava preparada pra assistir a série.

Print da abertura da série

Estava completamente enganada! Lágrimas não são o meu forte, pois eu assisti a primeira temporada numa leva só e, cada episódio, tinha que tirar os óculos e usar o lençol para enxugar as lágrimas… Fiquei impactada demais.

Vai e vem, no meio dos pensamentos sobre Jesus, minha amiga me convida para assistir a missa no santuário de Arcanjo Miguel em Bandeirantes… Devota do arcanjo e anjos, topei e fomos.

Eu já havia ido no santuário há alguns anos, não tinha muita gente, não tinha muita coisa e a energia era incrível.

Fotos: acervo pessoal

Não foi assim dessa vez… Que fique claro: o que vou escrever aqui é opinião PESSOAL! Que o intuito não é ofender ninguém! Mas… Ao chegar, percebi o complexo que o santuário se transformou e sinceramente começou daí o “desgosto”.

Restaurantes, lojas, barulho, uma multidão de pessoas que a todo instante sacavam seus celulares e tiravam selfie… Até aí, estávamos do lado de fora e é até normal registrar com os amigos, mostrar o lugar, etc

Só que…

Quando entrei na igreja, muito barulho, pessoas falando o tempo todo, celulares na mão, gente tirando selfie junto a imagem do arcanjo, como se ele fosse um ídolo POP.

Um casal cantando e dando testemunho e a moça do lado do rapaz dançando como se fosse uma líder de torcida. No altar!

Pensei que, quando a missa começasse, as pessoas iriam parar um pouco. Quase uma hora daquilo e eu já estava me sentindo num festival de música qualquer… Estava torcendo para que a homilia fosse tão espiritual quanto as cenas do seriado…

A decepção desceu em mim poderosamente, quando na homilia o padre me saiu com essas “pérolas”: “FAMÍLIA é HOMEM, MULHER E FILHOS” e “SE SEU MARIDO CASOU NA IGREJA, SE SEPAROU E CASOU A SEGUNDA VEZ COM UMA MULHER SOLTEIRA, ESTAO COMETENDO ADULTÉRIO! E COMO QUEBRAR ESSA MALDIÇÃO? NÃO TER RELAÇÕES CARNAIS, VIVER NA MESMA CASA E NÃO COMPARTILHAR A MESMA CAMA”! OI? Como é que é?!

Jesus falou isso? 

Jesus que escolheu os pobres, os excluídos, que curou, que pregou só amor e só deixou dois mandamentos: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti MESMO.   

Deus do seu coração…

E as pessoas aplaudindo! APLAUDINDO!

Eu queria ir embora. Nenhuma oração do arcanjo, a imagem de Miguel como que um enfeite do “palco” que virou aquele altar.

Nesse domingo, entendi o quanto a arte salva! Uma série de televisão me ajudou a reconectar com o mundo espiritual, com a presença do mestre!

Num minuto, percebi que houve uma inversão de valores! O espetáculo para uma multidão estava dentro de um local que deveria ser sagrado, de reverência, sem que as pessoas tirassem selfies, delas mesmas e da missa, como se padres , feiras, Cantores fossem os “artistas”!

Sai de lá completamente decepcionada…

E fui para a terceira temporada da série… Meu “personal Jesus” não é esse que acusa, que faz com que pessoas se sintam culpadas por “leis” e regras impostas por humanos. O casamento até tempos atrás era apenas uma forma de negociação. E, inclusive, uma forma de rebaixar as mulheres…Jesus, como O percebo, pede seu coração, não aponta dedos!

Igreja, seja ela qual for, não é um palco… jamais deveria ser! Um palco é um PALCO, um altar é outra coisa! É como a arte…A arte é uma espécie de recomeçar…

Ensinar a nadar contra a corrente

De ensinar a pensar, de ensinar a nadar contra a corrente e de ter opinião própria, de servir para que o mundo invisível se torne visível… Entre outras coisas. A arte jamais coloca as pessoas em “caixinhas”! Se alguém fala que ser artista é seguir a corrente, isso não é arte!

Ouvi de uma amiga artista, que é ateia, que a arte é a sua religião…

E ela não está errada… pois, mesmo sem querer, quando pintamos, esculpimos, desenhamos, estamos nos conectando com uma força maior que a nossa, com uma energia que nos abastece, que nos anima, que nos ama, que nos escolheu…

Tentei tirar o máximo do pouco que recebi no domingo.

Pedi licença para tirar as fotos da gruta que fizeram no santuário.

Não me senti bem,todavia! Eu não estava lá como turista, estava em uma missão! Acreditando que, como das outras duas vezes que fui no santuário, ia conseguir me conectar melhor com as energias do meu querido amigo Arcanjo Miguel.

E ele estava lá, a imagem dele, que algumas pessoas usaram para tirar selfie e postar nas suas redes sociais, tentava me lembrar a todo instante que ele estava lá também, apesar de tudo aquilo.

AQUILO, sim! Barulho, palmas, celulares, falatório  que não permitem  que você fique em silêncio, que você consiga se comunicar com o divino num local que deveria ser sagrado!

Como pode uma série de TV emocionar mais que uma missa? Acho que só a arte ensina a "nadar contra corrente"

A música dentro de uma igreja é para elevar, não para ser um show… Cada coisa no seu lugar! 

Foi o dia que uma série de TV foi mais espiritual do que uma missa “de verdade”.

A força da arte, que nada contra a corrente, tem sido mais forte que um ritual , que está procurando agradar quem não consegue se reconectar se tudo não parecer uma espetáculo.

Deixando claro por aqui: a maior admiração por padres e freiras que colocam seus dons artísticos a favor da religiosidade ! Mas, como disse: cada coisa no seu lugar!

Ou como Jesus disse: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”…

Sigo para quarta temporada da série e de antemão já sei o que é a inspiração para o próximo trabalho.. Ou dos ensinamentos que terei…

Ângela Diana

Sou londrinense e me dedico à arte desde 1986 quando pisei pela primeira vez no atelier de Leticia Marquez. Fui co-fundadora da Oficina de Arte, em parceria com Mira Benvenuto e atuo nas áreas de pintura, escultura, desenho e orientação de artes para adolescentes e adultos.

Instagram angela_dianarte

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