Por Ana Paula Barcellos
O rádio chia na JBL do balcão da padaria do bairro e encontra o cheiro de pão quente. O locutor, autoproclamado “a voz da verdade”, vai rosnando as bobagens de sempre, enquanto o Zé, que acordou às cinco pra pegar o busão lotado, escuta atento, o café esfriando na xícara, pra depois repetir: “Pra quê vacina? Deus cuida!” Do outro lado da cidade, na clínica da Unimed, a fila é de carrões. “A vacina da gripe? Esgotou, senhor, mas logo chega mais”, diz a recepcionista, sorrindo atrás do balcão impecável. Na UBS do bairro, sobram doses no freezer, mas o Zé não aparece. Por quê?
Ricos não ouvem rádio. Não esse rádio, pelo menos. Eles têm podcast premium, Spotify sem anúncio, e o WhatsApp deles é uma curadoria fina: grupos de médicos, links de artigos da Harvard, alertas da clínica particular. O rádio, coitado, ficou pra quem ainda depende dele: o pedreiro, a diarista, o motorista de app, gente que liga o aparelho pra fazer companhia no trânsito, na obra, na cozinha. E o que eles escutam? Um show de horrores. E muitas vezes, inclusive, amplifica e dá voz para esse tipo de absurdo, justificando que é “a voz do povo“. Não apresenta fontes, não explica, só assusta. E o Zé, que já vive correndo pra pagar o aluguel, engole o medo e foge da UBS como o diabo foge da cruz.

Enquanto isso, na zona sul, a dona Patrícia, de 52 anos, agenda a vacina da gripe, da pneumonia e meningite pro filho adolescente. Aplicação em domicílio! Paga entre R$ 300 e R$ 500 por dose, mas “é pela saúde, né?”. Ela não ouviu o papagaio da rádio. Ela nem sabe que ele existe. O celular dela toca uma notificação: “Dra. Ana recomenda: proteja-se contra a influenza”. E lá vai ela, de SUV, pra clínica cheirosa, ou recebe a enfermeira em casa, leva a picada no intervalo do cafezinho. Na UBS, cafezinho é o que o Zé trouxe na garrafa térmica, e a enfermeira, quase implora: “Olha, seu José, é segura, protege o senhor e a família”. Mas o Zé balança a cabeça, desconfiado. “Tô de boa. Tô ouvindo que isso aí é perigoso.”
Rico se vacina e pobre acredita no rádio
Por que será? Por que o rico se vacina e o pobre hesita? Dinheiro compra tempo, acesso, informação de qualidade. Quem tem grana lê o site da Fiocruz, consulta o médico particular, paga o plano de saúde que estoca vacina. Quem não tem se vira com o rádio, com o áudio de WhatsApp do “tio que entende de política”, com o boato que corre mais rápido que o vírus. A desinformação é como gripe: pega fácil, se espalha rápido e faz mais estrago em quem já tá fraco. O Zé, que mal tem tempo de checar o rótulo do leite, vai checar o quê? A credibilidade do locutor? A fonte do grito?
Na UBS, as doses da gripe esperam. Na Unimed, a lista de espera cresce. O rico, vacinado, segue a vida: academia, escritório, viagem pra praia. O Zé, de ouvido colado no rádio, tossindo no busão, acha que tá se protegendo do “sistema”. Os papagaios da rádio seguem berrando e dando corda, o vírus segue adoecendo, e a gente segue se perguntando: até quando a verdade vai ser luxo de quem pode pagar?

Ana Paula Barcellos
É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural. Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
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