Por Telma Elorza
“Socorro, sou viciado em pornografia. Não consigo mais me relacionar com ninguém, porque prefiro ficar assistindo filmes pornôs e batendo punheta. Como posso sair disso?”
Rapaz, que bom que você viu que tem um problema e quer solucionar. Isso é o principal. Quando a gente percebe que algo não anda bem e tem resolver, é o primeiro passo para que as coisas melhorem.
Você não me deu muitos detalhes sobre você, mas posso imaginar que é um homem jovem – até uns 40 anos -, que viu na pornografia uma válvula de escape para as tensões e estresses do dia a dia e, com a frequência, acabou se viciando. Com a internet oferecendo milhões de filmes pornôs de fácil acesso e, em muitos casos, gratuitos, isso é mais comum do que você pensa. Se fosse um adolescente (entre 10% a 18% dos adolescentes são viciados em pornografia, segundo alguns psicólogos, mas não consegui achar o estudo que aponta isso) provavelmente não teria procurado ajuda porque não teria detectado o problema.
Ou seja, muita gente está nessa mesma enrascada que você (inclusive alguns famosos que admitiram publicamente o uso desenfreado de pornografia, como Billie Eilish, Cara Delevingne, Terry Crews, Jada Smith e Hugh Grant, só para citar alguns). Boa parte, no entando, ou não percebeu ainda ou morre de vergonha de admitir. Mas vamos falar a real: isso é um vício como qualquer outro (inclusive em cocaína, por exemplo), e sim, tem explicação científica pra isso.
O pornô funciona como um fast-food para o cérebro. Fácil, rápido, cheio de opções, e o prazer vem em segundos. Só que essa recompensa imediata libera uma avalanche de dopamina — o “hormônio do prazer” — no cérebro. O problema é que, quanto mais dopamina artificial você joga ali, mais o cérebro se acostuma e começa a pedir doses maiores pra sentir o mesmo barato. Isso se chama dessensibilização, e já foi bem estudado por neurocientistas como Norman Doidge, no livro “O Cérebro que se Transforma”. Ele explica que o cérebro molda seus caminhos conforme o uso — ou seja, quanto mais você vê pornô, mais ele vira padrão automático.
Pornô tira a graça de coisas reais
Um estudo publicado no jornal JAMA Psychiatry, em 2014, mostrou que o consumo excessivo de pornografia está ligado a menor atividade e menor volume da massa cinzenta no cérebro, especialmente no núcleo caudado, área relacionada à motivação e ao prazer. Ou seja: mais pornô, menos motivação pra buscar prazer em coisas reais, como uma mulher (ou homem, sei lá sua sexualidade) de carne e osso. O sexo real acaba parecendo sem graça, porque ali não tem edição nem uma atriz (ou ator) fingindo um prazer exagerado. E isso pode levar à disfunção erétil ou ter outros efeitos colaterais, com a síndrome do Punho de Ferro – quando está com pessoas reais, mesmo sendo totalmente saudável fisicamente.
Mas você pode sim, reverter esse quadro. O primeiro passo, você já deu, que foi admitir que esse vício está lhe fazendo mal. Que tal agora buscar ajuda profissional de um psiquiatra e psicólogo, por exemplo? Seu vício deve ser tratado como qualquer outro, com medicação e terapia. Tem gente que tenta fazer sozinho, como se estivesse largando o cigarro, cortando de vez. Mas você tem que “reprogramar” seu cérebro também, porque não é só dependência física. Só os profissionais podem ajudá-lo a evitar gatilhos (ansiedade, tédio, solidão, frustração, etc) que podem levá-lo a cair em tentação.
Além disso, procure se distrair com hobbys e atividade física, saia com os amigos, vá ao cinema e fique longe o maior tempo possível da internet. Encher o dia com atividades reais e concretas vai ajudá-lo, porque quanto mais ocupado estiver com coisas que lhe dão prazer, menos espaço vai ter na sua vida para filmes pornôs.
Aos poucos, seu cérebro vai reaprender a ter prazer com coisas e pessoas reais. E vamos combinar, né? Sexo a dois é muito melhor que sozinho. Nada se compara ao toque de outra mão, do beijo, do suor escorrendo nos corpos. Fazer uma mulher (ou homem) gozar é algo bem excitante para a maioria das pessoas. Vídeo nenhum chega perto disso. Então, não se prive de uma sexualidade plena e feliz se há possibilidade de reverter sua situação. Vá buscar ajuda profissional e bora sair dessa.
Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre sexo? Mande sua pergunta para telma@olondrinense.com.br
Quem é Tia Telma?

Telma Elorza é jornalista, divorciada, xereta por natureza e que sempre se interessou muito por sexo. Com a vida, aprendeu várias coisas, mas a principal é que sexo é uma coisa natural e deve ser sempre prazeroso.
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