Ministério Público, de novo, fazendo o povo se explicar

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Por Ana Paula Barcellos

Londrina acordou com um zum-zum daqueles no fim de maio. Era o Ministério Público do Paraná, o MP-PR, botando o dedo na ferida da prefeitura: “Dois salários pra secretário? Aqui não!”. O movimento popular Anticorrupção Por Amor a Londrina, entregou uma denúncia ao Gepatria e o negócio, rapidinho, virou inquérito. Dia 29 de maio de 2025, a Notícia de Fato foi instaurada; dia 30, já tinha recomendação na mesa do prefeito. Três secretários no olho do furacão: Marcos Jerônimo, da Planejamento, Vivian Biazon, da Saúde, e Leonardo Bueno, de Recursos Humanos. O fato? Suspeita de acumular cargos e salários, como se o orçamento público fosse oba-oba.

Imagina só: você, que rala pra pagar o boleto da luz, descobre que o pessoal lá de cima tá recebendo dobrado. Não é um bico, não é um freela. É salário de cargo público, daqueles que a Constituição proíbe acumular, salvo exceções que não parecem ser o caso aqui. O artigo 37, inciso XVI, é claro: um cargo, um salário – a não ser que você seja professor ou médico com horários que não se cruzem. Mas, pelo visto, na prefeitura de Londrina, a interpretação da lei tava mais criativa que receita de miojo gourmet.

O MP-PR, quer saber: de onde vem esse dinheiro extra? É de outra esfera de governo? E o Projeto de Lei nº 52/2025, que o Executivo mandou pra Câmara, o que tá escondendo? Dizem que é pra pagar gratificações a quem já tá em cargo comissionado, mas o Gepatria franziu a testa: “Gratificação pra quê? Tá sobrando dinheiro?”. Enquanto isso, a população de Londrina, começa a fazer as contas. Se tem grana pra pagar dois salários pra secretário, por que falta remédio no posto de saúde, por que falta médico?

Ministério Público teve que ser cutucado

O movimento “Por Amor a Londrina” fez muito bem, porque sem pressão popular o MP-PR não teria mexido tão rápido. Mas o buraco é mais embaixo. Quem fiscaliza quem tá no poder? A gente vota, a gente paga imposto, mas parece que, lá em cima, o jogo é outro. Secretário não é funcionário qualquer: é quem manda, quem decide, quem corta a fita de inauguração. Se até eles tão debaixo de suspeita, como confiar que o dinheiro do IPTU vai pra onde deve?

A prefeitura ainda não se pronunciou, e os secretários, até onde se sabe, tão se explicando. Mas a verdade é que, enquanto o inquérito rola, a desconfiança cresce. O MP-PR quer transparência: quem recebeu o quê, quanto e por quê. A população quer mais: quer o dinheiro de volta, quer a fila do SUS mais curta. Dois salários enormes pra quem já tem de sobra é um tapa na cara de quem vive com um — e olhe lá. Londrina merece mais que isso. Merece uma gestão que não precise do Ministério Público pra fazer o certo, como a cidade já viu em sua história recente.

O Ministério Público emitiu recomendação para o Município sobre os dois salários de secretários municipais

Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural. Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga os Instagram yopaulab

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