Lilo & Stitch, o alienígena do afeto

lilo-e-stitch-Divulgação

Por Marcelo Minka

O mundo anda cheio de ‘alienígenas’ — e nem todos vieram do espaço. Mas este é diferente. Na nova versão live-action de Lilo & Stitch, a Disney não apenas revive uma história querida. Ela encena um experimento: o que resta da poesia quando a animação vira carne, quando o traço vira músculo, quando o afeto vira produto?

Dirigido com sensibilidade por Dean Fleischer Camp (Marcel the Shell with Shoes On), o filme tenta capturar a centelha que fez do original de 2002 um hino silencioso aos deslocados — e, por momentos, consegue.

Mas o que realmente pulsa aqui não é o brilho digital de Stitch, mas o olhar ainda intacto de Lilo, a menina que dança hula com os pés na ausência, órfã da mãe e órfã do mundo, cercada por uma Havaí que é mais memória que postal.

A atriz mirim que interpreta Lilo (nova e luminosa) carrega a alma do filme com o tipo de vulnerabilidade que não se treina. Ela é o núcleo humano onde o absurdo encontra abrigo.

Ao seu redor, a recriação do universo havaiano — com direito a Nani reimaginada, Cobra Bubbles suavizado, e uma trilha sonora que respeita Elvis mas insinua novas camadas — costura um cenário que, mesmo realista, ainda soa sonhado.

Lilo & Stitch: afeto que brota do estranho

Stitch, agora recriado em CGI, é mais domesticado do que o original — tanto no visual quanto na selvageria cômica que o tornava único. O que era pura anarquia afetiva no desenho torna-se aqui um mascote adorável, quase comportado. Talvez um reflexo de nosso tempo, mais ávido por doçura do que por caos redentor.

Mas o filme acerta ao manter vivo o coração do enredo: a construção de uma família improvável, não biológica, mas visceral. O hino “ʻOhana significa família. Família significa nunca abandonar ou esquecer” ressoa com uma beleza que atravessa a embalagem.

É nesse ponto que Lilo & Stitch se reconcilia com sua missão: lembrar que o afeto mais real muitas vezes brota do estranho, do improvável, do que não veio pronto. Para todas as idades, para quem ama animações — e para quem não resiste a uma história com alma.

Foto: divulgação

Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka e @m_minka_jewelry

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