Por Edmilson Palermo Soares
Após o artigo da semana passada sobre o Vinho da Santa Ceia, várias pessoas me perguntaram sobre os vinhos em Israel.
Vamos falar hoje a respeito.

A história de Israel é tão antiga quanto a do homem. São famosas as histórias bíblicas de consumo do vinho. Há muitas referências do cultivo da vinha e produção de vinho na Torá.
A região compreendida entre o mar Negro, o Cáspio e o da Galileia (norte de Israel), foram as primeiras regiões a dominarem a produção de vinho. A vinha viajou de Canaã (hoje Israel, Líbano e os territórios palestinos) até o Egito, país que ficou conhecido por ser a primeira grande cultura da vinha.
No Livro dos Números (um dos cinco que compõem a Torá), conta-se que Moisés mandou homens para espionar Canaã. Lá encontraram um cacho de uva tão grande que precisaram apoiá-lo numa vara, sobre os ombros de dois homens, para conseguir trazê-lo.
As adegas do rei David (1040-970 a.C.) eram tão grandes que havia um oficial responsável por elas.
Há registros arqueológicos de moedas com cachos de uvas gravadas nelas para celebrar vitórias como as de Bar Kochba (136 d.C.) sobre os romanos.
A destruição do segundo templo, a dispersão dos judeus da terra e a conquista árabe a partir de 600 d.C. acabaram derrubando a florescente viticultura em Israel.
Muito tempo se passou e o século XIX viu algumas tentativas de estabelecimento da vinicultura, como as do inglês Moses Montefiore, dos rabinos Yitzhak Shor e Avrom Teperberg, ambos em Jerusalém.
Por volta de 1882, judeus do leste europeu voltaram para Israel. Por causa da falta de basicamente tudo, os colonos de Rishon LeZion pediram ajuda financeira ao barão Edmond de Rothschild. O barão decide patrocinar o estabelecimento de muitas comunidades para que sejam autossustentáveis. Envia dinheiro e especialistas em viticultura para desenvolver a região. Como as vinhas da Europa estavam sendo devastadas pela filoxera, as primeiras mudas levadas ao país, livres do pulgão, foram importadas da Índia. Plantaram Alicante Bouschet, Clairette, Carignan, Grenache, Muscat e Sémillon.
Em seguida, ele construiu uma vinícola em Rishon leZion e outra em Zichron Ya’acov, cidade mais ao norte e pela qual se apaixonou. Levou experientes enólogos para supervisionar a produção. Por causa do calor, Edmond Binyamin (seu nome judaico) mandou construir outra vinícola totalmente subterrânea, concluída em 1896. A essa altura, o pai do barão tinha certeza de que ele havia enlouquecido. O gasto total com sua empreitada no novo país até aquele momento era de 12 milhões de francos, enquanto o Château Lafite, em Bordeaux, comprado por seu pai, havia custado apenas 4 milhões.
Em 1885, a Carmel Wine Company foi criada para comercializar os vinhos produzidos nas bodegas do barão. E Edmond seguiu em frente. Instruiu o químico Meir Dizengoff para que coordenasse a construção de uma fábrica de vidro para as garrafas. Este químico foi o primeiro prefeito de Tel-Aviv.

A contribuição de Edmond de Rothschild para a formação do estado de Israel não parou aí. Além de Dizengoff, os Primeiros-Ministros Ben Gurion, Levi Eshkol e Ehud Olmert – todos nomes proeminentes na política israelense – trabalharam nos vinhedos quando jovens. A primeira linha telefônica no país foi instalada para a vinícola. As primeiras instalações elétricas também, todas encomendadas pelo barão, que está enterrado na pequena e simpática cidade de Zicron Ya’acov, onde hoje é a sede da Carmel. A cidade ao lado, Binyamina, é uma homenagem a ele.
Durante a virada do século, os principais mercados para o vinho israelense eram Rússia e Estados Unidos. Com a Revolução Russa e a Lei Seca norte-americana, a florescente vitivinicultura do país se viu sem ter para onde exportar. Até os anos 1970, o vinho era voltado para liturgia. Produzido em grandes volumes, sem interesse maior, doce e feito com uvas não viníferas, a indústria estagnou.
Golã, região promissora da vitivinicultura de Israel

Nos anos 1970, estudos mostraram que a região de Golã, no extremo norte do país, era promissora para a produção de vinhos de qualidade internacional. Em 1983, Golan Heights Winery lançou uma primeira série de vinhos de qualidade internacional, desafiando outros produtores a investir na viticultura de alto padrão. As uvas mediterrâneas Grenache, Carignan, Petite Sirah, entre outras, foram acompanhadas por plantações de Cabernet, Merlot, Sauvignon Blanc, Chardonnay, Riesling e Gewürztraminer.
Muitos israelenses que estudaram fora, principalmente nos Estados Unidos, voltaram ao país decididos a aplicar seu conhecimento em Israel. Yair Margalit é tido como um dos pioneiros. Professor de química em UC Davis e autor de três livros referência em Davis sobre técnicas de enologia, ele largou a carreira de cientista e, em 1989, lançou sua primeira safra. Seus vinhos, da região da alta Galileia, são o cume da elegância do vinho israelense.
O sucesso das vinícolas artesanais definiu um novo estilo de produção no país: o de produção minúscula e qualidade altíssima. Margalit, Castel, Golan Heights (com a linha Yarden), Château Golan, Clos de Gat, as linhas top da Carmel e Yatir trazem novos ares para a antiga viticultura: os vinhos de butique (até 100 mil garrafas ao ano).
Israel é pequeno, mas tem todas as condições dos grandes países para produzir vinhos de qualidade, com uma variedade incrível de micro-climas.
Talvez os vinhedos mais impressionantes do país, pela peculiaridade de solos e clima, estejam no deserto do Negev. O verão chega facilmente a 45°C. São vinhedos irrigados com alta tecnologia, onde uvas bordalesas e mediterrâneas dão vinhos ricos, quentes e cheios da personalidade que só vinhedos no deserto podem oferecer. O grande destaque aqui é vinícola Yatir, que produz um Syrah respeitável, assim como Cabernets e Merlots impressionantes.
Israel mostra que fez a lição de casa: são produtores que estudam, conhecem o mercado internacional, exploram bem suas regiões e não estão para brincadeira. O aparecimento crescente de vinícolas de qualidade nos últimos 20 anos mostra que Israel está definitivamente dentro do panorama internacional dos grandes vinhos do mundo.
O que é um vinho kosher?
Nem todo vinho israelense é kosher. E muitos vinhos kosher são produzidos fora de Israel. As grandes vinícolas israelenses costumam produzir vinhos segundo as regras do kashrut (leis alimentares judaicas), mas a maioria das pequenas, não.
As regras para a produção destes vinhos estão muito alinhadas com as técnicas viticulturais que visam qualidade. Outras regras originaram-se na tradição religiosa judaica. São elas:
- Só se pode produzir vinhos com vinhas com mais de quatro anos;
- Não se pode produzir outros vegetais ou frutas dentro dos vinhedos;
- Após a primeira colheita, deve-se deixar o vinhedo descansar a cada sete anos (ano sabático);
- Todas as ferramentas e utensílios para a produção do vinho devem ser kosher e manter-se limpos;
- Quando as uvas chegam na vinícola, apenas judeus observantes do shabat (descanso semanal) podem manusear o mosto, vinho ou qualquer equipamento. Como muitos israelenses não o são, geralmente estas tarefas são realizadas por ortodoxos;
- Todo material utilizado na vinificação (leveduras) e clarificação devem ser kosher;
- Uma quantidade simbólica do vinho, representando o dízimo, pago na época do templo de Jerusalém, deve ser jogada para fora dos tanques ou da barrica onde estão sendo produzidos.
Que tal tomarmos um vinho Israelense. Estou te esperando.
Fonte: Rogov’s Guide to Israeli Wine 2009. ed. Toby.
Foto principal: Pixabay
Edmilson Palermo Soares


Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral. Me siga nas redes sociais: no Instagram @contaverna, Facebook Confraria da Taverna e Linkedin
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