Pós Covid 19: Exercício físico ajuda a recuperar crianças com doenças crônicas

adolescentes praticam atividade físca -freepik

A constatação é da pesquisa realizada como parte da tese de doutorado na USP da londrinense, agora, doutora Camilla Asstley

Suzi Bońfím

O Londrinēnse

O exercício físico é o caminho para garantir uma melhor qualidade de vida para crianças e adolescentes com doenças crônicas, como as  reumáticas, neurológicas e oncológicas, que tiveram COVID 19. A constatação é da pesquisa realizada pela londrinense e doutora em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Camilla Asstley, na tese de doutorado “Efeito do treinamento físico sobre a qualidade de vida relacionada à saúde em crianças e adolescentes após a COVID-19 e síndrome inflamatória multisistêmica pediátrica”, apresentada na segunda-feira (10/03). 

Segundo Camilla, pacientes do Hospital das Clínicas de 7 a 18 anos, que estavam debilitados de um modo geral foram submetidos a um programa de treinamento físico on-line com intensidades de leve a moderada,  considerando a capacidade de cada um, durante três meses. 

“A síndrome inflamatória multisistêmica pediátrica (SIM-P) é uma condição grave associada à COVID-19. Ambas podem levar a disfunções multissistêmicas e afetar negativamente a qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS), ocasionando comprometimentos físicos, cardiorrespiratórios e psicossociais. Neste cenário, o exercício físico surge como uma intervenção promissora”, constata a tese de Asstley.

Os resultados obtidos no trabalho com um grupo aleatório de 32 crianças e adolescentes que participou de um programa de treinamento físico domiciliar mostraram tendência de melhora na capacidade cardiorrespiratória e melhorias significativas na frequência cardíaca de pico, na recuperação cardíaca em 1 minuto e resposta cronotrópica, ou seja, a capacidade do coração de ajustar a sua frequência cardíaca em resposta ao exercício e às necessidades metabólicas do corpo. 

“Esta constatação reforça o quanto as crianças e adolescentes com doenças crônicas precisam do exercício físico. Geralmente, elas têm medo de fazer esforço físico e piorar a doença, quando na verdade, o exercício melhora a capacidade física e cardiorrespiratória. É preciso ter profissionais capacitados em fisiologia do exercício e com um conhecimento amplo da patologia para atuar com este tipo de paciente”, considera a pesquisadora. 

Fake News – Doenças cardíacas em atletas relacionadas à Covid 19

A doutora Camilla Asstley é uma das responsáveis pelo fim da fake news que associava a parada cardíaca de atletas americanos  à Covid 19. Asstley, participou da pesquisa sobre Parada cardíaca súbita entre atletas competitivos jovens antes e durante a pandemia de COVID-19 (Sudden Cardiac Arrest Among Young Competitive Athletes Before and During the COVID-19 Pandemic) publicada na semana passada na revista científica JAMA Network Open.

A londrinense e doutora em Ciências Camilla Asstley tem estudos importantes na área da saúde, voltados para exercícios físicos. Ela foi uma das responsáveis por desmintir cientificamente uma fake news sobre a Covid 19
Camila Asstley

O trabalho foi desenvolvido durante um intercâmbio na Faculdade de Medicina da University of Washington (Seattle) sob a supervisão do professor e também autor do artigo Jonathan Drezner, que é diretor do UW Medicine Center for Sports Cardiology e médico das equipes de futebol americano Seattle Seahawks e Washington Huskies.

De acordo com a pesquisa, registros de parada cardíaca e morte súbita em atletas foram semelhantes entre o período anterior (2017-2019) e o pandêmico (2020-2022). O estudo analisou laudos médicos e um conjunto de dados de atletas entre 10 e 34 anos identificados por meio de um programa do National Center for Catastrophic Sport Injury Research (NCCSIR), mantido desde 2014 com o objetivo de acompanhar lesões e doenças relacionadas à participação em esportes. Os resultados mostraram dados semelhantes: foram 184 registros de paradas cardíacas ou mortes súbitas durante a pandemia e 203 no período anterior.

Camilla Asstley ressalta que além de conseguir esclarecer  a morte de atletas, a pesquisa alerta para duas situações importantes. “Primeiro, a vacinação é a única forma de proteção contra a Covid 19 e, assim, quanto mais pessoas estiverem vacinadas, menor as chances de casos da doença.  Segundo, a parada cardíaca e morte súbita podem ser provocadas por problemas congênitos que muitos atletas desconhecem, ou seja, não sabem que têm problemas no coração. Portanto, é fundamental saber se há casos na família e fazer um check up anual”, orienta.

Na terça-feira (11), a participação da brasileira na pesquisa nos Estados Unidos foi divulgada pela Agência Fapesp.

Londrinense em Harvard e na University of Washington  

Nascida e criada em Londrina, a doutora em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) Camilla  Asstley é mais um exemplo de como a persistência e determinação são essenciais para conquistar os seus sonhos. No caso da menina que aos cinco anos perdeu o pai em um acidente de trânsito, quando ele tinha apenas 21 anos, e foi criada pela avó Maria Bernadete, o esporte foi a mola propulsora deste desempenho.  

“Eu só estou aqui hoje porque desde os 12 anos de idade, tive o judô na minha vida”, garante Camilla, que não esquece os ensinamentos do sensei Alexandre Segantin, seu mestre no judô em Londrina, a quem escreveu agradecendo depois de concluir o doutorado. 

Formada em Educação Física pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), em 2016, desde o início da faculdade se dedicou à área de pesquisa com crianças e adolescentes e também é  fisiologista do exercício. Camilla fez mestrado e doutorado com bolsa de estudos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

“No intercâmbio na University of Washington fiquei no Centro de Cardiologia do Esporte sob orientação do professor Jonathan Drezner e no departamento de Cardiologia pediátrica do Seattle Children’s Hospital, com o professor Michael Portman. Depois fui pra Boston, fazer um período de intercâmbio no Boston Children’s Hospital, que é o hospital pediátrico filiado a Harvard Medical School, onde fique no Centro Fitness, do departamento de cardiologia pediátrica, orientada pela de Naomi Gauthier”, destaca Camilla.

Hoje, aos 30 anos, a mais velha das quatro filhas da servidora pública Francesca Amaral que continuar  o caminho da pesquisa científica. A meta é começar o pós doutorado. 

Na defesa da tese, Camilla Asstley e o orientador Bruno Gualano e com a mãe, Francesca Amaral – Fotos: Acervo pessoal

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