Por Ana Paula Barcellos
A indicação de Fernanda Torres ao Oscar 2025 por sua atuação como Eunice Paiva em Ainda Estou Aqui não é apenas um triunfo da atuação, mas também um caso de estudo em coerência estilística. Desde o início da campanha, a atriz e sua equipe — liderada pelo stylist brasileiro Eduardo Garcia, seu parceiro criativo há mais de 15 anos — têm construído uma narrativa visual que dialoga diretamente com a essência da personagem que a consagrou: uma mulher marcada por perdas, mas dona de uma dignidade inabalável.

Não é à toa que Torres declarou, em entrevista ao Globo, que jamais usaria roupas “que fugissem à sobriedade” de Eunice nos tapetes vermelhos. E cumpriu. Seus looks até aqui são um manifesto de elegância discreta: tailleurs de cortes impecáveis, vestidos de mangas longas em alfaiataria fina, e acessórios mínimos, quase sempre herdados de familiares. Garcia, conhecido por seu trabalho com atores globais e por valorizar a moda nacional, parece ter encontrado na simplicidade sofisticada o ponto de equilíbrio entre o cinema e a vida real.
Mas eis que surge o burburinho: fontes próximas à produção sugerem que Fernanda pode surpreender na cerimônia deste fim de semana com um vestido de grife internacional. A pergunta que paira é: depois de tanta sintonia com a personagem e o discurso de valorização do trabalho local, seria um deslize estratégico trocar a alfaiataria brasileira por um Yves Saint Laurent ou um Armani?

A questão não é nova. Em 1999, Fernanda Montenegro, mãe de Torres, chegou ao Oscar indicada por Central do Brasil usando um vestido de Valentino — escolha que gerou polêmica. Na época, o estilista Ronaldo Fraga criticou a decisão em entrevista à Veja (março/1999), argumentando que designers nacionais tinham potencial para vesti-la. Montenegro rebateu, alegando que a proposta de Fraga chegou “em cima da hora”, mas a justificativa não calou a discussão sobre representatividade.
Voltando a 2025: Fernanda Torres replicaria o “gesto equívoco” da mãe? Eduardo Garcia, que já vestiu a atriz em momentos icônicos (lembram-se do robe de seda no tapete de Tapas e Beijos?), tem crédito para evitar ciladas. Além disso, a moda brasileira vive um momento áureo, com nomes como PatBo, Gloria Coelho e o próprio Garcia recebendo holofotes globais. Optar por uma grife estrangeira soaria, no mínimo, como um déjà vu incômodo.
Fernanda Torres e o estilo less is more
Claro, há outras questões a se considerar. O Oscar é um jogo de influências, e a pressão por visibilidade internacional muitas vezes fala mais alto. Fernanda Torres, porém, sempre foi uma figura de discurso afiado e escolhas calculadas. Seu estilo less is more durante a campanha não foi acidental: cada peça reforçou o vínculo com Eunice Paiva, personagem que exige respeito, não glamour vazio. Trocar esse código por um vestido de alta-costura europeia, ainda que deslumbrante, arriscaria descolar a atriz do papel que a levou até lá.

Aposto minhas fichas (e meus drinks de domingo) na inteligência dessa dupla. Eduardo Garcia sabe que a moda é storytelling, e Fernanda Torres não é de desperdiçar narrativas. Se aparecer de Valentino, será uma ironia histórica. Mas, se mantiver a linha sóbria com um toque de ousadia made in Brazil, consolidará não apenas seu lugar no panteão do cinema internacional, mas também o poder de uma estética que honra suas raízes.
E você, onde vai assistir? A cerimônia, transmitida gratuitamente em telões espalhados pelas capitais — de cinemas a bares temáticos —, promete ser um evento coletivo (aqui em Londrina terá transmissão no Cine Vila Rica, no cinema do Sopping Royal, no Bar Brasil e no Máximo Villa, entre outros). Que seja, no mínimo, uma noite de celebração (ou de indignação fashion, caso um YSL fura olho apareça). Fernanda Torres, seja qual for a escolha, já nos deu um filme para lembrar. Resta saber se seu guarda-roupa seguirá o mesmo legado.
PS: Fernanda, se por milagre estiver lendo, a gente torce por um look do Ronaldo Fraga. Só pra fechar o círculo.
Foto principal: Reprodução/ABC
Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate. Me siga no Instagram Me siga no Instagram @experienciasdecabide e @yopaulab
Leia todas as colunas Em Alta
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

