O Homem do Norte é carnificina artística, imperdível

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Por Marcelo Minka

Está até difícil escrever este texto nesta manhã de sábado, dedos enregelados. Mas o gosto pela escrita e o cafezinho bem quente ajudam. E num frio como este, nada melhor do que um bom filme de Robert Eggers (O Farol – 2019).

Quando vamos ao cinema podemos esperar dois tipos de filmes: ou é um blockbuster, com muita ação, pancadaria, piadinhas baratas, roteiro fácil, etc., ou é um filme ‘artístico’, com fotografia linda, design de produção de tirar o fôlego, atores bem dirigidos, emoção, roteiro intrigante, etc. Especificamente em O Homem do Norte, Eggers consegue unir os dois estilos, fazendo uma espécie de ‘blockbuster artístico’ com maestria, um Shakespeare, dadas as devidas proporções, à la Michael Bay (Transformers). E essa salada ficou incrível, temos mitologia nórdica, mitos vikings, feiticeiras, cenas animalescas e visual apoteótico.

O roteiro remete àquela já gasta história shakespeariana do tipo Hamlet, usada até em animação da Disney (O Rei Leão – 1994) e lembra Hamlet até no nome do personagem principal – Amleth, onde tudo gira em torno de vingança familiar, traições, traumas de infância, amor dividido. O que diferencia este filme dos outros Hamlets é a mão pesada de Eggers, quer seja na ambientação nórdica com atmosferas claustrofóbicas e muito brutalidade visceral, quer seja no tom contido e artístico, tudo milimetricamente pensado.

O filme também traz um elenco de peso muitíssimo bem dirigido; Alexander Skarsgard (não achei no teclado aquela bolinha que vai em cima do a de gard, coisas da Suécia), Anya Taylor-Joy (O Gambito da Rainha – 2020), Nicole Kidman (linda como sempre), Ethan Hawke (lindo como sempre), Willem Dafoe (usando toda a sua pantomímica facial, como sempre) e Bjork (também não achei no teclado os dois pontinhos em cima do o, coisas da Islândia).

Neste elenco bilionário, o destaque vai para Skarsgard. Desde que interpretou o vampiro delícia na série True Blood, o ator não para de se reinventar, e como o homem do norte ele se supera, segurando o roteiro de ponta a ponta. E quando juntamos o roteiro, a direção e os planos da câmera, percebemos que estamos em uma hipnótica peça teatral, somos mesmerizados até o final apoteótico, novamente Shakespeare. Saindo do cinema, parece que estamos saindo de um sonho-pesadelo, com a psique virada do avesso.

Nos cinemas da cidade, O homem do Norte é carnificina artística, blockbuster autoral. Imperdível.

Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas.

Foto: Divulgação

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