Por professor Renato Munhoz
Não por menos que o segundo Objetivo do Desenvolvimento Sustentável da ONU esteja ligado ao primeiro, não é possível erradicar a pobreza no mundo sem a erradicação da fome.
Segundo pesquisa do DataFolha, em 2021 cerca de 32 milhões de pessoas no Brasil deixaram de fazer alguma refeição no dia, pois não tinham dinheiro para comprar comida. E outros 26% de cerca de 55 milhões de brasileiros tinham comido menos do que necessitavam para sua segurança alimentar.
A Insegurança Alimentar é o monstro que assombra a humanidade nos últimos tempos, levado por uma economia que tem encarecido o acesso aos alimentos básicos. Para se ter uma ideia, o valor da cesta básica em pouco mais de um ano saltou de cerca de R$ 400 para mais de R$ 700. Quase dobrando o valor, criando ainda mais dificuldades em relação a alimentação básica, necessária para a sobrevivência humana.
Mas se o Brasil é um dos maiores produtores agrícolas do mundo, por que corremos o risco de faltar alimentos nas nossas mesas?
O segundo ODS aponta, atrelado à questão da fome, a dimensão da Agricultura Sustentável. Ou seja, uma forma de produzir que esteja atrelada a sustentabilidade. E, de novo, não apenas na preservação dos recursos naturais e da diminuição do uso de agrotóxicos por exemplo, mas na garantia do acesso a alimentação.
Sem dúvida, os investimentos em um modelo de Agricultura de Exportação e o monocultivo de alimentos têm levado o mundo a um estágio de alerta. Ou seja, de tudo o que é produzido no Brasil, segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), cerca de 75% dos alimentos que vão para nossa mesa são produzidos por pequenos agricultores, conhecida como Agricultura Familiar.
Há um engano na ideia de que os grandes produtores de grãos, por exemplo, sejam os responsáveis pela alimentação dos brasileiros e brasileiras. Do que produzem, mais de 80% é destinado para produção de ração em outros países do mundo.
É importante destacar de que a Agricultura Familiar, além de ser responsável pela nossa alimentação no dia a dia, é o modelo de agricultura que tem considerado a sustentabilidade como forma de vida e produção. A maioria dos produtores de alimentos orgânicos no Brasil estão alocados dentro de pequenas e médias propriedades.
Cresce no Brasil também o interesse pela Agroecologia que, além de produzir o alimento, garante todas as condições para a sobrevivência do Meio Ambiente.
Mas o que falta então para alcançarmos este ODS?
Sem dúvida, mais uma vez os objetivos do milênio da ONU já apontaram para a necessidade da união de esforços com a criação de redes de apoio e políticas públicas. Aponto para três dimensões que podem contribuir para a realização deste objetivo:
Produção de alimentos mais próximo das pessoas. É preciso que as pessoas tenham acesso não apenas ao alimento, mas a própria produção. A criação de projetos e politicas públicas de fomento a agricultura urbana, por exemplo, tem levado o alimento ao quintal ou a vizinhança. É importante fortalecer estes projetos como forma de garantir a autossuficiência e a segurança alimentar.
Fortalecimento de Programas de Agricultura Familiar. A exemplo do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), que leva para as escolas brasileiras alimentação para nossas crianças e que os municípios são obrigados comprar a maior parte da Agricultura Familiar e Sustentável, é preciso ampliar estes modelos de programas, para outros públicos que necessitam do enriquecimento da alimentação. Este é um esforço que muitos municípios do Brasil, por exemplo, têm criado a moeda verde, onde as pessoas trocam o lixo reciclável pelo alimento produzido de forma saudável.
Criação de Redes de Apoio a Alimentação. As Cozinhas Solidárias do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST) têm sido um exemplo a ser seguido. Levando para as periferias do Brasil, mais do que o acesso a alimentação, mas sobretudo a informação sobre o alimento. É preciso que as pessoas tenham acesso as formas de produzir e como fazer. Várias iniciativas de nutricionistas, por exemplo, ensinando a fazer comida com cascas e talos. Com comida de preço acessível. Outro exemplo é dos assentamentos de Reforma Agrária do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), que tem distribuído pelas periferias do Brasil mas de 6 mil toneladas de alimentos. Este é um esforço de mais de 30 anos da Pastoral da Criança, por exemplo. Sem estas “Redes de Apoio”, a comida não chega de forma adequada e a informação muito menos. Betinho, grande lutador contra a fome no Brasil, já nos disse: “quem tem fome tem pressa”. É importante iniciarmos desde já este movimento. Não podemos continuar assistindo a ideia de que comida é privilégio. Comida antes de qualquer coisa é Direito Humano.


Renato Eder Munhoz
Historiador e Teólogo, especialista em Educação Ambiental e Sustentabilidade. Coordenador de Projetos do COPATI (Consórcio de Proteção Ambiental do Rio Tibagi).
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