Por professor Renato Munhoz

Na série sobre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), como falamos aqui, damos início nossa caminhada com o objetivo primeiro das ações que deverão ser tomadas para a construção da cultura da sustentabilidade. Não por acaso e nem por coincidência, o primeiro objetivo trata da erradicação da pobreza e aponta para a necessidade de acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares.

No Brasil hoje 116,8 milhões de pessoas passaram a viver em insegurança alimentar, sendo que 43,3 milhões não tem acesso aos alimentos em quantidade suficiente (insegurança alimentar moderada) e 19 milhões passam fome (insegurança alimentar grave), segundo pesquisa da Rede PENSSAN – Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional.

O Panorama Social do CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) indica que, em 2020, aumentou a proporção de mulheres que não recebem renda própria e se mantiveram as lacunas de pobreza nas áreas rurais, povos indígenas e crianças. E que esse número, entre 2021 e 2022, por conta da crise sanitária e econômica, houve uma tendência de crescimento. Sobretudo se as politicas públicas de acompanhamento emergencial não continuarem alcançando a população mais vulnerável.

No Brasil, para além dos cenários alarmantes de crescimento da pobreza e extrema pobreza, assistimos com certa frequência uma ausência de governabilidade do processo econômico. E a ausência da interferência do Estado tem lançado a margem um número ainda maior de pessoas a uma situação de dificuldade de acesso a alimentação e aos bens essenciais para a vida humana.

Mas o que a pobreza tem a ver com a sustentabilidade ou com o Desenvolvimento Sustentável?

Não pode haver desenvolvimento sustentável sem desenvolvimento humano.  No centro de qualquer ação deve estar o sujeito que é sempre a pessoa humana. Sem considerar isto, retiramos da sociedade um elemento fundamental que, além de ser o sujeito, é sem dúvida o protagonista para a construção de uma nova ótica humana, baseada na ideia de que não existe natureza ou planeta vazio da presença de seres humanos.

E que ao mesmo tempo, impactados pelo modelo de desenvolvimento, são também atores capazes de alterar o curso planetário que o fora criado pela cultura de dividir e retirar muitas vezes o ser humano da ótica ambiental.

Quando falamos em Meio Ambiente, no centro dele estão as relações produzidas pelos homens e mulheres que são parte do mesmo meio com todos os seres que o compõe. As interferências antrópicas, que são as ações causadas pela presença humana nos ambientes, foram e são as responsáveis pela maior parte do desiquilíbrio gerado no planeta.

Mas se o ser humano é parte integrante, por que destrói sua própria casa? Poderíamos entender esse processo como uma nova forma de autodestruição. Se não mudarmos a consciência, se não alterarmos o rumo, caminhamos para uma barbárie coletiva. Onde alguns terão de tudo e a maioria não terá nada.

Repensar o Desenvolvimento Sustentável é, por consequência, fortalecer novas práticas humanas e ambientais. O acesso a alimentação adequada e aos bens necessários para o “bem viver”, não pode ser privilégio e sim um direito humano.

É possível pensar um processo conciliatório entre o desenvolvimento econômico e o desenvolvimento sustentável? 

Há várias visões otimistas, mas de maneira geral é preciso construir uma nova relação ética e um processo de “entropia” entre os seres. Edgar Morin fala da construção de uma nova ética planetária e, para alcançarmos esse desejo, é necessário um longo caminho. Que começa pela compreensão e pela sensibilização de que no atual modelo não haverá desenvolvimento econômico atrelado ao desenvolvimento sustentável, enquanto a natureza for vista como mera fornecedora de matéria-prima. E no caso humano, mera mão de obra.

Papa Francisco, na Encíclica Laudato Si, aponta para o “urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar.”

Renato Eder Munhoz

Historiador e Teólogo, especialista em Educação Ambiental e Sustentabilidade. Coordenador de Projetos do COPATI (Consórcio de Proteção Ambiental do Rio Tibagi).

Foto: Pexels

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