Dia da Mentira: Acreditar em racismo reverso está liberado apenas neste dia

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Por Viviane Alexandrino

O racismo é uma prática estruturada no Brasil e ganha novos – e infelizes capítulos – quando as pessoas brancas não se conscientizam que racismo tem como premissa inicial a cor da pele, considerada um problema.

Comecei o mês de abril sendo consultada a respeito do termo racismo reverso. É, não adianta. Djamila Ribeiro já alertava que as pessoas pretas são consideradas uma espécie de Wikipreta por pessoas brancas. A consulta se deu em razão da política de cotas, pois julga-se um “privilégio” para os negros e não uma política de inclusão social, uma ação afirmativa que possibilita que pretos possam ter acesso à educação, vagas de empregos em concursos públicos, entre outros exemplos. Já parou para pensar quantos negros há no funcionalismo público estadual? Se já os viu, quais são os setores nos quais eles trabalham? Estão em cargos de chefia?

Primeiro, é preciso ressaltar, mais uma vez, que todo o processo histórico da escravidão, deixou marcas sociais para as pessoas negras no Brasil: a demora para liberar o acesso à educação – sim, os negros não puderam ir à escola logo quando surgiram os primeiros centros educacionais – , entender que após a escravidão, os negros precisavam trabalhar e que inúmeros deles, sem um olhar atento por parte da sociedade e governantes, logo após o 13 de maio de 1888, acabaram voltando-se para trabalhos com regimes análogos à escravidão, pois não aceitava-se que negros, agora libertos, tivessem direitos, como salários e jornadas de trabalho fixadas.   

É preciso, de novo e de novo, afirmar que os negros sofrem com a inserção social em vários setores e demandas sociais por todo o constructo social oriundo do período de escravidão. Afirmar que a política afirmativa de cotas – e seus resultados comprovadamente identificados – é uma espécie de racismo reverso é, no mínimo, um argumento sem consistência e lógica.

O racismo é um sistema de opressão, em que uma estrutura de privilégios foi construída de concedida a partir do desenvolvimento da esfera social. Aqui, destacam-se pontos políticos, econômicos e sociais. Quantos negros você se lembra de ocupar, hoje, um cargo político de destaque?  O racismo é um sistema de poder, ou seja, uma organização criada e estabelecida para que o que foi fixado não seja subvertido.

Logo, pessoas pretas não têm condições de revidar espontaneamente todo um sistema construído para dificultar sua inclusão social. Entendeu? Se ainda não, serei mais didática: segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), as pessoas negras são as que mais sofrem com a extrema miséria no Brasil, aproximadamente 75% das pessoas em situação de vulnerabilidade social são negras.

Pessoas negras com o mesmo grau de escolaridade de pessoas brancas têm rendimentos inferiores aos trabalhadores brancos. Os índices envolvendo carceramento, violência, mortes mostram que os negros são os mais atingidos.

Então, quais são os bloqueios e enfrentamentos sociais enfrentados pela população branca? É preciso entender que ainda que os brancos também enfrentem violência, desemprego e outras mazelas sociais, eles não são vitimizados em massa em razão de sua cor de pele. Eles não são os que sofrem abordagens policiais truculentas em razão de sua cor de pele; a eles não são imputados crimes de roubo, com “provas” duvidosas, como o caso dos irmãos Luiz e Gustavo, de Diadema, que nem no local do crime estiveram, mas foram presos como suspeitos. Sua cor? Não é difícil de imaginar, né?

Os brancos não são agredidos só por estarem sentados em frente a um prédio residencial, após uma jornada de trabalho. Foi noticiado nesta semana: a mulher branca deu oito joelhadas, safanões, em uma mulher negra que estava sentada. No mínimo, por acreditar que “todo negro é um criminoso”.

Não existe supremacismo negro, quando toda uma sociedade foi construída para não facilitar a vida do negro. Não existe racismo reverso quando não foi você quem levou joelhadas após um dia extenuante de trabalho. “Ah, mas já me chamaram de palmito”. Mas já deixaram de lhe contratar em razão de sua cor de pele? Reflita, gente! A história está disponível para acesso, consultas e reflexões. Racismo reverso é mais uma tentativa de uma sociedade racista deslegitimar as pautas e lutas do povo negro. Afinal, como pode o subalterno falar, não é mesmo?  Axé!

Viviane Alexandrino

Sou a Viviane, tenho 36 anos e atuo como professora de Língua Portuguesa em colégios da cidade de Londrina. Além da formação em Letras Português, pela UEL, e mestranda em Estudos Literários pela referida instituição, sou formada também em Jornalismo, profissão essa que exerci durante 10 anos antes de me apaixonar pela educação.

Foto: Pexels

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