Como o etarismo cobra “juventude eterna” das mulheres

pexels-nataliya-vaitkevich-7826297

Por Telma Elorza

Passando um tempo na cidade natal para cuidar de questões familiares, eu estava assistindo ao Jornal Nacional, dias desses, e escutei essa frase da minha mãe, que estava comigo: “Nossa, como essa repórter está enrugada e velha. Nem devia estar mais na TV ou, pelo menos, fazer uma plástica”! Na hora, fiquei quieta, porque uma senhora de 81 anos simplesmente reproduziu uma crença comum, a que mulheres que envelhecem sem se preocupar em fazer plásticas para se manterem jovem nem deviam mais trabalhar em vídeo. Aliás, pela crença da sociedade, nós, mulheres mais velhas devíamos nos apagar e nem aparecer em público.

Tá, estou radicalizando. Mas é essa a impressão que tenho ao ouvir opiniões semelhantes. Isso se chama etarismo, o preconceito, intolerância, e discriminação contra pessoas com idade acima dos 50.  Homens e mulheres sofrem com isso, principalmente quando procuram recolocação no mercado de trabalho. Mesmo com experiência profissional e uma vida produtiva e eficiente pela frente (+50 não é sinônimo de incapacidade intelectual), é muito difícil para essas pessoas conseguirem um emprego renumerado, em cargos superiores a um empacotador de supermercado.

Mas as mulheres sofrem ainda mais com o etarismo por conta do padrão de beleza imposto pela sociedade. A mulher, para ser aceita – seja no mercado de trabalho ou nas relações pessoais – TEM que ser jovem ou, pelo menos, aparentar uma certa juventude. Exibir rugas e corpo flácido? Nem pensar. Nunca vou esquecer o ataque que a Xuxa Meneghel (sim, a Rainha dos Baixinhos) sofreu, há alguns anos, ao postar uma foto, sem nenhum tipo de maquiagem, nas redes sociais. “Velha” e “acabada” foram alguns dos adjetivos. Sua culpa? Ter mais de 50 anos. O mesmo aconteceu com Madonna, em 2020, também numa rede social.

O que se espera de mulheres +50 é que envelheçam de forma ativa e “higiênica”: fazendo plásticas, se exercitando pesado para manter o corpo dos 20 e sem cabelos brancos aparecendo. A atriz e cantora Cher é um exemplo: com +70, ainda mantém a aparência dos 35, à base de muita plástica e interferências na aparência. Nada contra. Se foi uma opção própria, porque o quis, se sente bem. Mas se o faz para ainda conseguir trabalho em shows e filmes, quem pode dizer o que isso custou a ela em termos de sofrimento físico e psicológico?

Ninguém assume ser etarista. Assim como todo preconceito e discriminação, é tudo velado. Ele aparece publicamente apenas em declarações como a da minha mãe, ela mesma uma senhora idosa. Declarações essas que reforçam o lugar negativo da velhice, que não é visto como um processo natural da vida e que deve ser combatido a todo custo.

Mas é preciso aceitar que o envelhecimento é um processo natural, aos que deram sorte de sobreviver para ter mais de 50 anos. O que não é natural é a busca pela “juventude eterna”, plastificada, engomada e embrulhada para presente. Aceitar que todos envelhecemos – e sim, um dia você também vai passar dos 50 – é o primeiro passo para reduzir a discriminação e começar a ver as pessoas com novos olhos, mais simpáticos para com quem preferiu assumir as rugas.

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse