Festas de final de ano e a obrigação de ser feliz: será?

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Por Rogério Bosso (psicólogo) e Alessandra Diehl (psiquiatra)

Com a chegada do final de ano, é muito comum que fiquemos com as nossas emoções mais afloradas. Talvez o motivo esteja nas celebrações ou talvez na autocobrança de pedidos de união ou ainda, na “obrigação” de estar e ser feliz. Mas será que, de fato, temos esta obrigação de ser feliz nas festas de final de ano? O quanto o mundo imagético e midiático dos dias atuais reforça a todo momento esta mensagem de “felicidade” atrelada a beleza, riqueza, sucesso e magreza?

Sem dúvida, a chegada do final de ano nos traz um momento no qual, muitas vezes, mesmo sem nos darmos conta, acabamos refletindo sobre a vida e o ano que está se encerrando. Nesse momento do ano, esse comportamento acaba sendo reforçado e induzido pelos comerciais que trazem a famosa música “então é Natal, e o que você fez? O ano termina e renasce outra vez”. Lidando com momentos finais, somos cobrados internamente a pensar sobre o que foi bom e o que foi ruim. Emoções são revividas, e a carga emocional que estava adormecida, vem à tona novamente e vivemos um misto de sentimentos sobre o luto pelo que ficou e, ao mesmo tempo, a compensação que a vida nos traz, de um novo recomeço, principalmente em tempo tão obscuros e incertos como estamos vivendo nestes dois anos de pandemia.

E tudo bem não estarmos totalmente felizes! Permita-se também não estar feliz sempre! A felicidade não é um ponto de chegada que você tem que sair correndo atrás dela. A felicidade parece ser mais um direito que se conquista aos poucos do que uma obrigação, de fato.

Essas emoções e reflexões tornam-se naturais quando algo termina ou está próximo ao fim, como, por exemplo, no encerramento de um ciclo no trabalho, no término de um relacionamento ou, até mesmo, muitas vezes, no final de um filme. A finitude costuma mexer muito com as nossas emoções. Momentos como esses nos coloca em choque com a realidade que tentamos, na maioria das vezes, ignorar: tudo tem uma data de validade, ou seja, um fim. O prazo de validade nos coloca em movimento, pois deixa claro a data limite porque, depois, vem uma nova história, mas se não nos apressarmos para o fechamento desse ciclo atual, ele não voltará mais. Nosso emocional nos cobra!

Por muitas vezes, pensamos que tudo poderia ser muito diferente e poderíamos ser muito mais felizes se tivéssemos aquela vida da influencer do Instagram ou se ganhássemos, por exemplo, na loteria. Mas será que nossas emoções entendem que estamos ganhando e esse seria, de fato, a resolução de todos os nossos problemas para ser feliz?

Um estudo realizado com indivíduos que ganharam na loteria avaliou a felicidade dessas pessoas, antes de ganhar, logo depois de ganhar, um mês depois de ganhar, seis meses depois de ganhar e vários anos depois de receber o prêmio. E sabe qual foi o resultado? Com o passar do tempo, a maioria das pessoas entrevistadas voltaram ao nível de felicidade que relataram antes de ganhar na loteria. O estudo nos mostra então que o ditado popular pode ser verdadeiro: dinheiro não traz felicidade.

Mas quando falamos especificamente sobre o final de ano, além do encerramento de um ciclo, temos também a oportunidade de nos prepararmos para algo novo e, é sobre esse novo ciclo que temos que refletir. É dado o momento de realizarmos o exercício de fazermos uma retrospectiva de nossas vidas e tentarmos ‘colocar as coisas no lugar’ em nossa mente. Mas não se esqueça que encerrar um ciclo, como o que ocorre todo mês de dezembro, traz consigo, também, novas possibilidades. Para vivenciar esse momento único e especial, com muitas possibilidades de rearranjos em nossas vidas, tente reservar um tempo só seu, sozinho e em um lugar tranquilo. Conecte-se com a natureza e consigo mesmo em um ambiente de paz. 

Dicas e pensamentos que podem ajudar na organização para o novo ciclo:

  • Faça um exercício de identificar os pontos positivos vividos e tente reforçar as habilidades que o levaram a alcançá-los;
  • Faça um exercício de identificar os pontos negativos que viveu e tente eliminar as habilidades que o levaram a esses momentos.
  • Olhe para os pontos negativos como uma nova chance que a vida lhe deu para que possa aprender e fazer diferente em uma nova tentativa. O mais importante é que você tente sempre se movimentar em busca de melhorarias para sua vida e, caso sinta que precisa, busque por ajuda profissional.
  • Quais foram os principais aprendizados que teve sobre si e sobre a vida, no ciclo que se encerra?
  • Quem foram seus fiéis parceiros, aos quais você deve gratidão?
  • Quais situações, hábitos e pessoas precisam ficar em 2021 e quais deseja levar para 2022?
  • O que a pandemia ensinou para você?  O que você tem vivido e o que aprendeu com esse momento pandêmico?
  • Consegue identificar em quais atividades você deve direcionar mais tempo? 
  • Cuidou da saúde? Fez exames periódicos, exercícios físicos? Sim, parabéns! Esse é um ponto positivo a ser mantido. Não fez nada disso? Ok, você terá mais 365 novas oportunidades para fazê-los. Aproveite!

Agora que você já fez os exercícios de reflexão, estabeleça metas de curto, médio e longo prazo para que você possa se organizar, traçando as prioridades da vida e realizando atividades com começo, meio e fim. Tente começar pelas metas de curto prazo, pois quanto mais metas você conseguir concluir, mais capacitado você se sentirá e mais estimulado e motivado estará para concluir as metas de médio e longo prazo.

A organização possibilita que vivamos com mais tempo para nós mesmos e consequentemente, com mais qualidade de vida e saúde mental em 2022. Permita-se!

Boas festas!

Foto: Tim Mossholder no Pexels

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