Cavalos de fogo

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Por Cassiano Russo

Sou um criador de cavalos. Meu haras está repleto deles. Cavalos arredios, dos quais não posso me aproximar. Por isso, sou obrigado a criá-los com certa cautela, porque eles podem me dar coices violentíssimos que me matariam. Sim, justo eu, criador de cavalos. Quando ficam muito agitados, não há nada que os detenha. Simplesmente arrebentam tudo o que veem pela frente e saem galopando pelos campos de minha enorme propriedade durante as madrugadas, como se estivessem prestes a deflagrar uma guerra, ou uma revolução. Eles relincham e batem os cascos: revoltados, rebeldes. Cavalos de fogo que queimam a vegetação do pasto, pois seu alimento é o próprio ardor das chamas que consomem. E não, eles não usam ferraduras. Seus cascos são inesgotáveis e deixam marcas profundas por onde pisam, marcas que queimam o solo e que jamais serão apagadas.

Esses cavalos de fogo, com sua sinfonia equina que atormenta e assombra minhas noites, quando não consigo dormir, invadem meu quarto e me ferem com suas crinas em brasa. E, então, eu me ponho a escrever sobre esses animais, em busca de algum alívio para o meu tormento mediante a confecção de uma crônica.

Todos criamos nossos próprios cavalos de fogo. Todos somos vítimas de nossas próprias criações, que nos machucam o corpo e a alma. E não podemos nos livrar delas, por mais que tentemos, pois nós somos o que criamos – o que fazemos de nossas vidas – que, em muitos casos, não é mais do que um masoquismo criativo, como os cavalos que, um dia, iniciei a criação como se fossem potros inocentes e atrapalhados, pelos quais eu nutria certa admiração – naquela época eu não sabia que estava a produzir uma fogueira enorme da qual sairiam cavalos incendiários, aos quais estaria condenado pelo restante dos meus dias!

Carrego estigmas. Os cavalos que criei me machucam. Sou um criador de cavalos, cavalos que saem da fogueira que me tortura e que se realiza em minha escrita, pois os malditos cavalos querem que eu escreva sobre eles. Os homens devem ter consciência da existência desses animais perigosos. Apenas faço a vontade dos cavalos, para que meu espírito não vire brasa, para que eu não termine num pasto, como carne queimada de cavalo com olhos de fogo – queimado pelos meus próprios cavalos! – como acontece com escritores que, por medo da opinião de pessoas leigas à produção literária, escondem suas criações em gavetas, como se seus cavalos de fogo pudessem ficar bem guardados, distantes do público leitor, lacrados em cômodas de madeira resistentes ao fogo.

Mas as coisas não são bem assim, pois a madeira que esconde nossas criações queima com as chamas de nossos escritos que querem sair – esses nossos cavalos de fogo! – e conquistar os leitores.

A esses autores –  que escondem seus cavalos em caixas, ou gavetas –  só digo uma coisa: os cavalos devem correr soltos pelo mundo, e não importa que eles sejam de fogo, que eles queimem, e que seus criadores fiquem todos chamuscados, porque a literatura – a boa literatura – deve queimar a estultícia que carregamos em nós mesmos.

Portanto, galopemos pelo cosmos em brasa, a queimar em nossas criações, soltemos os cavalos pelo universo, que eles traçarão as linhas de fogo da inspiração. Eles farão a literatura e trarão a necessária destruição de tudo o que é tédio e monotonia.

Eles ainda farão deste lugar um redemoinho policromo de sensações.

Essa será a escrita do corcel de fogo nos corações dos meus leitores, com os cascos a bater em suas almas, para que eles saibam que minha existência toda tem sido uma criação de cavalos de fogo.

Sim, eu mesmo!

Pobre criador de cavalos que escreve crônicas sobre escrita e criação.

Foto: Pexels

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