Por Wilson Francisco Moreira, Cientista Social,
Você pode até comemorar o título, mas discordo. Discordo porque a democracia me obriga a discordar, como também o cristianismo me obriga a discordar, assim como qualquer regra de convivência me obriga a discordar. A cultura e a sociedade moderna só foi capaz de evoluir de verdade com a emergência da democracia no intuito de domar os extremos. Os ideais fundamentalistas ao extremo ainda carregam o instinto da barbárie mais baixa da humanidade; Como vemos o Talibã e outros grupos extremistas que governam ainda alguns países fora do ocidente. Grupos que em nome da religião e de seus alegados princípios justificam todas as barbaridades contra seres humanos apenas por ousarem pensar de forma diversa.
A democracia estabelecida ao longo das lutas seculares e do aprendizado com as tragédias, como no caso do nazismo, confirmou-se como espaço de convivência e tolerância a pensamentos diversos e este princípio muitas vezes ainda não é compreendido por muitos, por inacreditável que isso possa parecer.
A tolerância a que a convivência democrática propõe e permite apontar para o saudável exercício da cidadania e das liberdades da manifestação do pensamento, outrossim é a própria democracia que estabelece seus limites, ou então não precisaríamos das leis e regras e a democracia tornaria anarquia e voltaríamos o tempo da luta de todos contra todos, onde o mais forte é que sobrevive. O poder da violência pura e simples.
A conquista e o exercício do poder na democracia pressupõe o próprio compromisso com o poder, que é democrático por excelência. As regras são acordadas no diálogo e no debate com espaços garantidos a todas as correntes de pensamento, excluídas as que não reconhecem essas mesmas regras. A democracia só não permite, e não pode permitir, o ataque a ela mesma. A liberdade de expressão apenas é possível sob a democracia, e é ela seu próprio limite. Não é liberdade de expressão sem configurar crime a calúnia, injúria e outras formas de agressão pessoal. Ameaça de morte também não pode ser considerada simples liberdade de expressão. Quando a linha entre liberdade de expressão e crime parece muito tênue, é adequado que a justiça defina e deixe bem claro a diferença.
É triste quando vemos e ouvimos a frase do título desse texto “Esquerdista tem que morrer” foi a frase do Marcelo, que estava na avenida paulista em São Paulo, no ato pro governo deste dia 7 de setembro. Marcelo portava cartaz em inglês pedindo a morte de Lula e foi questionado por uma repórter de jornal a razão do cartaz, em resposta ele citou a frase. Esquerdista, direitista, centrista ou o que seja não tem que morrer, pelo menos a democracia não funciona assim. Só vale o debate de ideias, porém as ideias precisa estar dentro de limites, ou como queiram “dentro das quatro linhas da constituição”. Nossa Constituição estabelece o Estado democrático de direito, impensável que se use a liberdade de expressão para ameaçar a vida e a própria democracia.
Embora os delírios golpistas ainda andem por aí, não há mais espaço para aventuras autoritárias, a democracia tem o remédios para os próprios males. As instituições hão de tratar os equívocos. Os extremistas hão de compreender, cedo ou tarde, que por mais difícil que lhes possa parecer, a tolerância é o melhor caminho. Saudável é o debate de ideias, só assim caminhamos para buscar a solução dos problemas reais, que aliás não são poucos. Difícil é a arte de governar na democracia, mas com jeito se consegue.
Foto: Maí Yandara/Fotos Públicas

