A saúde mental da Mulher Negra

Simone Biles (Estados Unidos). Medalha de ouro no individual geral masculino do Mundial de Ginástica Artística Doha 2018, no Qatar. Local: Aspire Dome, em Doha. Data: 01.11.2018. Foto: Abelardo Mendes Jr/ rededoesporte.gov.br

“Não confunda desabar com desistir”

Não confunda desabar com desistir

Te vejo distraindo tuas dores

e o que te falta de verdade

é deitar no chão de casa

e sentir e chorar e apertar os olhos

se esvazie de suas agonias

para que novos rios

Ryane Leão, em Jamais peço desculpas por me derramar

Quero começar a coluna da semana de forma poética para falar de uma coisa que vem sendo romantizada, assim como a poesia, ao longo da história, por toda a sociedade, sobretudo a brasileira: a questão da saúde mental da mulher negra.

Essa mística de que a mulher negra aguenta tudo é uma das mais severas mentiras apregoadas e que, como consequência, está deixando milhares de mulheres com sua saúde mental debilitada, inclusive eu que já fui vítima do clichê do “seja forte, você é forte, você é mais forte do que isso”.

O estigma de ser forte afeta a saúde mental e Ryane Leão já nos deu a deixa em seus versos. Podemos, sim, desabar em momentos de luto, dor, sofrimento, indignação. E se o choro da mulher negra for um grito de alívio, não julgue que ela o faça. “Não confunda desabar com desistir”.

Durante as Olímpiadas de Tóquio tivemos um exemplo claro – e corajoso –  de uma das ginastas mais bem-sucedidas da história: a mulher negra Simone Biles, que antes de ser considerada uma máquina de potência esportiva, recordista e reconhecida é uma mulher negra que precisa de cuidados, entre eles um olhar para sua saúde mental. Biles estava no limite de seus múltiplos esforços e cobranças. Imaginem para ela como é ser exigida para ser excelência sempre, quebrar recordes, treinar de maneira excessiva. Chega uma hora que o corpo manda seu recado. Chega uma hora que a cabeça pode dar um nó.

“Te vejo distraindo tuas dores”. Foi isso que Biles e milhares de outras mulheres negras fazem diariamente: distraem suas dores como medo de serem consideradas fracas. Sim, eu também já chorei quando me chamarem de vulnerável.

Rebeca Andrade, também mulher negra e recordista em Tóquio, contou, em entrevistas, que passou por momentos de depressão, choros. Tudo isso, por desejar largar a ginástica. Além disso, passou por inúmeras lesões que a deixaram ainda mais agoniada para vencer seus problemas físicos, uma vez que sobre ela foi lançada a alcunha de “promessa do esporte nacional”. “se esvazie de suas agonias”.

Para nós, mulheres negras, nosso esvaziar vem pela fala, principalmente, mas isso não é uma tarefa fácil. Sabem por quê? Porque quem costuma ouvir nosso desabar, tem como hábito de não o legitimar, em razão de um racismo estrutural enraizado na sociedade.

Esse estereótipo de que somos fortes tem raízes no histórico do longo período de escravidão, a qual o Brasil foi submetido. Estudos indicam que ao indicar a feminilidade da mulher, sua provável fragilidade e quais atividades profissionais deveriam ser para mulheres, deixaram de olhar para as mulheres negras. O resultado disso vemos até os dias de hoje: estereótipos perpetuados e uma luta para mudar esse perfil histórico traçado.

Outro exemplo medonho da “força” da mulher negra chama-se violência obstetrícia. Mulheres negras sofrem mais no parto pelo mito que de são mais resistentes. Há um artigo intitulado A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil, datado de 2017, que aborda com fatos tal situação no Brasil.  Leiam, pessoal, é horripilante!

Por isso, que há momentos em que só nos resta “é deitar no chão de casa/ e sentir e chorar e apertar os olhos”. Que esses momentos nos traga a resiliência de nossas ancestrais para continuar existindo e propondo mudanças para situações tão entranhadas em nosso meio. E não tenha vergonha de buscar ajuda profissional, mulher negra! Cuide de você! Até a próxima! Axé.

Quem é Viviane Alexandrino

Sou a Viviane, tenho 36 anos e atuo como professora de Língua Portuguesa em colégios da cidade de Londrina. Além da formação em Letras Português, pela UEL, e mestranda em Estudos Literários pela referida instituição, sou formada também em Jornalismo, profissão essa que exerci durante 10 anos antes de me apaixonar pela educação.

Foto: Abelardo Mendes Jr/ rededoesporte.gov.br

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