“Não confunda desabar com desistir”
Não confunda desabar com desistir
Te vejo distraindo tuas dores
e o que te falta de verdade
é deitar no chão de casa
e sentir e chorar e apertar os olhos
se esvazie de suas agonias
para que novos rios
Ryane Leão, em Jamais peço desculpas por me derramar.
Quero começar a coluna da semana de forma poética para falar de uma coisa que vem sendo romantizada, assim como a poesia, ao longo da história, por toda a sociedade, sobretudo a brasileira: a questão da saúde mental da mulher negra.
Essa mística de que a mulher negra aguenta tudo é uma das mais severas mentiras apregoadas e que, como consequência, está deixando milhares de mulheres com sua saúde mental debilitada, inclusive eu que já fui vítima do clichê do “seja forte, você é forte, você é mais forte do que isso”.
O estigma de ser forte afeta a saúde mental e Ryane Leão já nos deu a deixa em seus versos. Podemos, sim, desabar em momentos de luto, dor, sofrimento, indignação. E se o choro da mulher negra for um grito de alívio, não julgue que ela o faça. “Não confunda desabar com desistir”.
Durante as Olímpiadas de Tóquio tivemos um exemplo claro – e corajoso – de uma das ginastas mais bem-sucedidas da história: a mulher negra Simone Biles, que antes de ser considerada uma máquina de potência esportiva, recordista e reconhecida é uma mulher negra que precisa de cuidados, entre eles um olhar para sua saúde mental. Biles estava no limite de seus múltiplos esforços e cobranças. Imaginem para ela como é ser exigida para ser excelência sempre, quebrar recordes, treinar de maneira excessiva. Chega uma hora que o corpo manda seu recado. Chega uma hora que a cabeça pode dar um nó.
“Te vejo distraindo tuas dores”. Foi isso que Biles e milhares de outras mulheres negras fazem diariamente: distraem suas dores como medo de serem consideradas fracas. Sim, eu também já chorei quando me chamarem de vulnerável.
Rebeca Andrade, também mulher negra e recordista em Tóquio, contou, em entrevistas, que passou por momentos de depressão, choros. Tudo isso, por desejar largar a ginástica. Além disso, passou por inúmeras lesões que a deixaram ainda mais agoniada para vencer seus problemas físicos, uma vez que sobre ela foi lançada a alcunha de “promessa do esporte nacional”. “se esvazie de suas agonias”.
Para nós, mulheres negras, nosso esvaziar vem pela fala, principalmente, mas isso não é uma tarefa fácil. Sabem por quê? Porque quem costuma ouvir nosso desabar, tem como hábito de não o legitimar, em razão de um racismo estrutural enraizado na sociedade.
Esse estereótipo de que somos fortes tem raízes no histórico do longo período de escravidão, a qual o Brasil foi submetido. Estudos indicam que ao indicar a feminilidade da mulher, sua provável fragilidade e quais atividades profissionais deveriam ser para mulheres, deixaram de olhar para as mulheres negras. O resultado disso vemos até os dias de hoje: estereótipos perpetuados e uma luta para mudar esse perfil histórico traçado.
Outro exemplo medonho da “força” da mulher negra chama-se violência obstetrícia. Mulheres negras sofrem mais no parto pelo mito que de são mais resistentes. Há um artigo intitulado A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil, datado de 2017, que aborda com fatos tal situação no Brasil. Leiam, pessoal, é horripilante!
Por isso, que há momentos em que só nos resta “é deitar no chão de casa/ e sentir e chorar e apertar os olhos”. Que esses momentos nos traga a resiliência de nossas ancestrais para continuar existindo e propondo mudanças para situações tão entranhadas em nosso meio. E não tenha vergonha de buscar ajuda profissional, mulher negra! Cuide de você! Até a próxima! Axé.
Quem é Viviane Alexandrino

Sou a Viviane, tenho 36 anos e atuo como professora de Língua Portuguesa em colégios da cidade de Londrina. Além da formação em Letras Português, pela UEL, e mestranda em Estudos Literários pela referida instituição, sou formada também em Jornalismo, profissão essa que exerci durante 10 anos antes de me apaixonar pela educação.
Foto: Abelardo Mendes Jr/ rededoesporte.gov.br

