Na época que não existia internet e nem celular, as notícias eram passadas por cartas e por telefone. Sou do tempo que este último tinha apenas dois dígitos. É só tinha uma linha em casa quem tinha dinheiro. Naquela época equivalia a um carro na garagem.
Como linha lá em casa só a de costura e a de empinar pipa dos meus irmãos, quem queria saber quem nasceu, morreu ou casou, tinha que ir até a “telefônica”, a central de fofocas comandada por alguém que tinha nome de personagem de romance de Nelson Rodrigues.
Solteirona, rica, de família tradicional, dona Regdalina Camarosano, entre pinos e comandos, sabia da vida da cidade toda. Era a nossa Leo Dias da época, sabendo em primeira mão quem comeu quem, as intrigas familiares, entre outras mazelas que só as cidades pequenas sabem acomodar.
Minha irmã, que casou-se com apenas 17 anos e foi morar longe, tinha dia certo da semana para ligar. Era só estar no prédio anexo à confortável residência dos Camarosano, no horário. O lugar, com seu piso quadriculado em preto e branco, era impecável. Ao lado, uma confortável varanda com suas espreguiçadeiras, exalava do jardim perfumes de dama da noite e jasmins. Sempre tinha alguém sentado por lá nas noites quentes da minha infância.
A família comandava a comunicação da cidade. O irmão, Natalino, além de vagar com um carro de som pela cidade – sim, ele foi pioneiro das tele-mensagens – ao final do dia entoava a Ave Maria no alto -falante pendurado no alto do poste ao lado da matriz.
Recadinhos para os namorados, felicitações de aniversário, tudo em alto e bom som entre um sertanejo raiz e um Nelson Gonçalves, dependendo da mensagem. Pago, obviamente.
Se a Ave Maria tocava fora da hora, era um Deus nos acuda. Certeza que alguém morreu. Se alguém morasse lá do outro lado da cidade, tinha que afiar o ouvido para escutar o nome do morto. Saia todo mundo para fora de casa para ouvir melhor. E ali na calçada mesmo começavam a falar sobre e do falecido.
O velório era feito em casa, e rolava rango para todo mundo. E no final, se transformava numa enorme roda de piada do lado de fora. Regada a café e cachaça nas madrugadas frias. E uma boa canja de galinha, que não faz mal a ninguém.
Em tempos em que a internet só era sonhada pelo autor dos Jetsons, a gente também escrevia cartas. Longas missivas em folhas de papel pautadas, escritas em Bic azul. Bom pra treinar caligrafia.
Escrevia sempre para meus primos. Não lembro o conteúdo, mas com certeza devia ser aquelas bobagens que os adolescentes hoje em dia escrevem em outra linguagem. Até hoje, no grupo da família, lembramos das missivas que mandávamos uns para ou outros. As cartas demoravam uma semana para chegar. As notícias, pois, já estavam velhas.
Tanto tempo depois, estou me achando aquelas velhas saudosistas. Minha filha, que nasceu praticamente com o cordão umbilical conectado a um computador, de vez em quando troca bilhetinhos escritos a mão. Mas não se engane. Vão junto com as encomendas feitas pela internet. Esse povo não sabe o que é ficar no portão, esperando o carteiro.
Raquel Santana

Já foi jornalista, acha que é fotógrafa, mas nesses tempos de Covid-19 ela só quer sombra e água fresca no aconchego do seu lar. Vendo seriados, óbvio!
Foto: Stefan Kuhn por Pixabay

