Depois que voltamos do acampamento feito no final de semana (contei sobre isso na coluna dessa segunda-feira) Rafa piorou de uma virose que já tinha dado as caras na quinta-feira, mas que ainda estava controlada. No domingo, ele realmente piorou: febre, vômito, diarréia, dor abdominal e eu ficava com ele para lá e para cá entre banhos, remédios, termômetro, tentando dar alguma coisa que ele conseguisse comer e manter no estômago… Como estava cansado por causa do acampamento, Biel demandou pouca atenção no domingo e praticamente ficou o restante do dia assistindo televisão.
Para ser justa, Biel se manteve tranquilo, ajudou a cuidar do irmão (pegava água, pegava toalha, ajudava a levar travesseiro da sala para o quarto, do quarto para a sala), mas diferente do habitual, ele começou a falar sem parar. O falante aqui de casa é o Rafa – que tem necessidade de comentar tudo o que está vendo, contar histórias, fazer perguntas, e quando não está falando com a gente está cantando ou falando sozinho. Já Biel passa muito tempo calado. Ele é extremamente observador, porém emite algum comentário vez ou outra. São personalidades bem diferentes.
Sentado no chão, ele olhou e percebeu que Rafa estava deitado no meu colo, então começou a resmungar que queria colo também. Primeiro, pensei que ele devia estar sentindo ciúmes, então coloquei um em cada perna e tentei ficar um pouco com os dois, mas o menor reclamou que estava desconfortável e que era para colocar o Rafa no outro sofá. Tentei contornar a situação, ele continuava empurrando o Rafa, então pedi para ele esperar e acabei levantando para colocar roupa na máquina.
Depois fiz o mais velho dormir e ele atrás de mim, acompanhando cada passo e continuou falando sobre um desenho que queria que assistisse com ele, quis que eu contasse história e pegou o mesmo livro várias vezes pedindo para ler. Cansada de fazer mil coisas ao mesmo tempo (porque óbvio que isso tinha que acontecer bem durante um curso do marido no qual ficou o dia inteiro fora e não tinha como me dar suporte) pedi rispidamente para Biel, por favor, ir brincar sozinho porque precisava cuidar do Rafa e cuidar da casa, do almoço e de muitas outras coisas. Ele me olhou magoado com seus enormes olhos castanhos, sentou no chão e começou a chorar baixinho. Foi um choro silencioso, doído, sem manha ou birra. Partiu meu coração.
Acabei percebendo que ele estava se sentindo sozinho, provavelmente porque Rafa brinca e conversa com ele a manhã inteira. Apesar de ficar em silêncio, ele gosta de ouvir o irmão. Sem o irmão falando, sem o pai por perto e com a mãe correndo para todos os lados sem tempo de dar atenção, ele ficou carente.
Pedi comida pelo telefone, larguei a louça na pia, os brinquedos espalhados, a roupa jogada, e peguei ele no colo. Fomos para o quarto e fiquei com os dois, abraçada, conversando e assistindo desenho e refleti que eles serão pequenos por pouco tempo, mas louça suja sempre vai ser louça suja. Tem coisa que pode esperar.
Foto: Acervo pessoal
Paula Barbosa Ocanha

Jornalista, casada, trinta e poucos anos, dois filhos e apaixonada por educação infantil. Mesmo antes de casar, eu lia e me interessava por técnicas de educação, livros de pedagogia e questões sobre o desenvolvimento humano, principalmente na primeira infância. Com essa coluna, gostaria de relatar minhas experiências pessoais. E assim espero lhe ajudar, de alguma forma, a passar mais facilmente por essa linda (e assustadora) jornada da maternidade! Vem comigo e me siga também no Instagram @mamaepata
