Dizem que em briga de marido e mulher, não se mete a colher. Em minha opinião, mete-se não somente a colher, mas o faqueiro inteiro.
Hoje, no Brasil, a cada dois minutos, cinco mulheres são espancadas. Em 80% dos casos, o responsável pela agressão é o próprio parceiro (marido, namorado ou ex) com quem convive diariamente, segundo a pesquisa Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado (FPA/Sesc, 2010).
Em abril deste ano, em apenas um mês de isolamento social, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMDH) registrou um aumento de 40% em relação ao mesmo período de 2019, de denúncias feitas pelo canal 180.
Os dados ligam o alerta, em particular para quem, como eu, mora em condomínio. E vou contar um caso recente e outro mais antigo, que aconteceram bem debaixo do meu nariz. E que provam que nesse tipo de briga, a gente chama todo mundo para ajudar, porque é nossa obrigação.
Vou começar com o mais recente, o que me obrigou a mudar de imóvel. Viver de aluguel tem lá suas vantagens. E fico feliz porque depois desse episódio, varias regras foram mudadas pelo nosso síndico.
Cresci ouvindo que em briga de marido e mulher, “não se mete a colher”. Eu meti o faqueiro inteiro e ainda chamei a Tramontina para me ajudar.
Mudei praticamente junto com os vizinhos, um casal de jovens que estavam vivendo juntos pela primeira vez. No início, o único barulho que ouvia era o da cama. Até aí, maravilha, tem gente se divertindo mais do que eu. Mas com o passar do tempo, o rapaz começou a ter comportamentos, digamos, fora do padrão.
Filho de pais ricos, usava um carro com a logomarca da empresa, mas nunca saía para trabalhar. Bebia a qualquer hora do dia e da noite e foi ganhando segurança dentro do condomínio, ao ponto de cheirar cocaína no carro, enquanto as crianças do prédio brincavam ao redor. Depois ele subia muito louco e descia o sarrafo na guria. Ela, que já era magra, estava ficando transparente. Pior que ouvíamos tudo, inclusive os xingamentos. E é impressionante como o padrão se repete. Abuso, muitas vezes, além de físico, também é verbal. Ele praticava ou dois.
No início não sabia como agir. Fui conversar com o síndico, que muito receoso, falou que eu só poderia reclamar se o barulho fosse fora de hora. Não, né? Então usei um recurso do condomínio que acabou surtindo efeito: o livro de reclamações.
Neste meio tempo, o casal resolveu adotar um gato e um cachorro. Aproveitei para me aproximar deles. Apesar do condomínio ter um enorme espaço externo, os animais nunca saiam de casa. Sem janelas teladas, o gato vivia escapando. Em uma das suas saídas, recolhi o animal por uma semana e eles nem notaram a falta. Devolvi porque o animal, um macho igual ao dono, estava descendo o cacete nas minhas gatas.
O ápice do estresse foi uma noite em que, depois de muitas vassouradas no teto e agonia pelo que estava ouvindo, perdi a paciência e aos berros chamei ele e a vizinhança lá fora. Foi um Deus nos acuda. Eu chamando ele para bater em mim se fosse homem. E como todo bom agressor, ele negando tudo. Para mim foi a gota d’água, mudei de bloco. Duas semanas depois, o casal foi despejado.
Mas eu não era réu primária, não. Já tinha me metido em outra briga de casal, quando morei no interior. Com direito à polícia e tudo.
mal havia me mudado e os vizinhos da frente estavam quebrando a casa. A vizinha do lado falou para não me meter, pois já estava “acostumada”. Não sei como alguém pode se acostumar com este tipo de situação. Liguei 190 e dei a maior “carteirada” da minha vida.
Ouvi dos policiais a mesma conversa, briga de casal, “melhor não se meter”. Virei numa giraia e falei para o policial que, caso algo mais grave acontecesse e fosse publicado no jornal em que trabalhava, eles que fossem se entender com seus superiores. Em dez minutos eles estavam lá. Não só assinei o boletim de ocorrência, como no outro dia bati na porta do casal e assumi que fui eu quem acionou as autoridades. Tempos depois eles se separaram e somos amigos até hoje.
A pergunta que fica é, caso alguém não interfira, o que de fato pode acontecer? As estatísticas estão aí para confirmar. Na maioria das vezes, as mulheres não denunciam e assim como os vizinhos, ficam caladas. Jamais vou me calar diante de qualquer situação de violência. Seja ela de que origem for.
Juntas, somos definitivamente mais fortes. Faça seu papel e chame o serviço de mesa todo, se precisar. Denuncie. Garanto que sua noite vai ser muito melhor.
Raquel Santana

Já foi jornalista, acha que é fotógrafa, mas nesses tempos de Covid-19 ela só quer sombra e água fresca no aconchego do seu lar. Vendo seriados, óbvio!
Foto: Pixabay

