É muito amor, bicho!

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Raquel Santana (*)

Não sei vocês, mas o confinamento tem mexido muito comigo. Acordo e tenho um total de zero para fazer. Não que a louça da pia não queira ser lavada, ou a areia das gatas trocadas, mas a sensação da clausura tem -me angustiado à beça. E sempre, sempre que isso acontece, entram em cena meus queridos e amados animais de estimação. São quatro, duas gatas e dois cães.

A filha mais velha atende pelo nome de Freya, uma homenagem à deusa mitológica nórdica. É ruiva e recentemente descobri que são raros os felinos ruivos serem do sexo feminino. Também é autista. Pois é, também não sabia que os animais também podem ser diagnosticados pelo espectro. Não entendia direito o olhar pro nada (sempre achava que ela via espírito, mas vai saber, né?).

Ela é medrosa e arisca e tem comportamentos como não gostar de colo, mudanças e barulho. Quando trocamos de apartamento ela ficou tão estressada que seus pelos caiam aos tufos. Passava o dia escovando a gata, que obviamente, não gostava. Então, quando ela demonstra qualquer tipo de interatividade e afeto, para nós é uma festa. E esses dias de rotina extrema, pelo menos para ela, tem sido mais confortável. Está mais tranquila e carinhosa. Ela adora dormir apoiada na minha perna. Desde que eu não me mexa. Freya tem sete anos.

A segunda filha a chegar foi a Mafalda. O nome é uma homenagem ao personagem do quadrinista argentino Quino. Mafalda, a personagem, é mal humorada e quer mudar o mundo. Mafalda, a gata, só é mal humorada mesmo. Peguei há cinco anos numa feira de adoção e minha frajola veio toda trabalhada numa roupa azul de bolas coloridas. Apaixonei -me imediatamente.

Na época, tinha uma loja de roupas e queria um gato para a loja. No quintal tinha um pé de seriguela. Não deu outra. Mafalda só queria os passarinhos da árvore. Levei para casa. Acham que sossegou? Nananinanão. A maloqueira adotou uma de nossas vizinhas, de 90 anos. Passava o dia lá, só vinha para casa comer. Voltava cheirando a alfazema.

Outra peraltice de Mafalda: nas madrugadas, minha filha voltava da balada e lá estava ela, dormindo no meio da rua, no asfalto. Ai meu coração de mãe! Agora ela não vai para lugar nenhum, está tudo telado. Por falta de exercícios, está obesa. E recentemente descobriu a torneira da pia do banheiro para beber água. De madrugada. Mia, chora e é a mais “falante ” dos meus filhos animais.

O terceiro filho adotado é o que mais enche meu coração. Também queria um cachorro para a loja. Na esquina de casa tinha uma pracinha e minha vizinha, que cuidava dos animais de rua, levava comida para ele. Um dia passamos de carro e vimos ela com o pote de comida nas mãos. Demos a volta no quarteirão e fomos conferir. Chegando lá, outras vizinhas se juntaram a nós, todas admiradas pelo fato dele ter subido no meu colo. Até então, não tinha deixado ninguém tocar nele. Depois, pulou para o colo da minha filha e pra nossas vidas.

Procuraram seus donos na internet e nada. Contaram que ele estava com as patas rachadas de tanto andar procurando sua casa. Diego, seu nome, é uma homenagem a Diego Rivera, o artista marido da Frida Khalo. Frida era o nome da nossa loja. Era pra ele ir para lá também. Mas Diego era vida loca. Passava pelo portão e atravessava uma via rápida para brincar. Levei para casa e juntos, nesses seis anos atravessamos oceanos e desertos. Sempre juntinhos. Mafalda acha que é mãe dele.

E por fim, meu último filho de quatro patas na real, é neto. Van Gogh, nosso “nhoque charles” (Yorkshire), foi presente de meu irmão para minha filha. Chegou para animar a casa. Não dá sossego para ninguém. Não tem como não achar graça e se apaixonar por ele.

Não sei vocês, mas quando alguém me diz que não gosta de animais, fico com um pé atrás. Só quem tem, sabe do que estou falando. Impossível não considerá-los parte da família. E nessa quarentena de total isolamento, em que a troca de carinhos estão proibidas, lá estão eles, rabicós abanando, nos olhando de pijama sem julgamentos, cheios de amor para dar. Não conheço remédio melhor para os tempos que vivemos.

(*) Jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina.

Fotos: Acervo pessoal

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