Cassiano Russo, professor de Filosofia
Em época de pandemia de coronavírus, tenho a sensação de que tudo adquire um caráter camusiano no mundo. Estamos lutando contra um vírus que tem levado muitos para a morte, porém o mais absurdo nesse estado de coisas que enfrentamos é que, de um jeito ou de outro, sabemos em nosso íntimo que nossa existência não é necessária no universo, que existimos por mero acaso, e até o mais crente dos crentes deve sentir isso quando está sozinho em seu quarto numa dessas madrugadas sombrias.
O absurdo está escancarado nos meios de comunicação, nas conversas, no medo e nos infectados. Estamos numa situação de completa contingência, e já sabíamos disso há tempos, mas, com a proliferação da doença, o caráter fortuito de nossas vidas nos bate na cara. E então nos damos conta de que nossa existência é um mero capricho, que uma forma de vida muito mais elementar do que a nossa pode nos destruir, e o sentimento de nada parece se apossar dos que se põem a pensar na gratuidade da existência.
Nunca imaginei que uma situação ficcional, como a de obras absurdistas, se tornasse tão concreta quanto eu, você, o vírus e o fim. Com isso, não pretendo criar pânico nos leitores, mas apenas advertir alguns – aqueles que ainda não se deram conta – da extrema precariedade que é a nossa presença no mundo, com uma consciência que não me deixa vislumbrar a esperança num taumaturgo que venha curar nossas desgraças.
De qualquer modo, se o vírus for controlado, conforme as medidas que os governos veem adotando, teremos de partir um dia, e não importa se você queira ou não morrer, pois a morte é um fato indubitável, e não faz a menor diferença se você acredita em Jesus Cristo, Buda ou Maomé; se você é conservador ou progressista; rico ou pobre, porque debaixo de sete palmos nós todos nos igualaremos um dia.
Por isso, podem levantar suas mãos para os céus e orar para quem quiserem. Não há escapatória para nós, mortais. Salvo Deus, que sempre existiu, ou nunca existiu, e por essa razão ou outra qualquer está livre de ser um mero erro de cálculo do cosmos. E o errozinho de cálculo, a espécie humana, vai criando seus fantasmas para se distrair de quarentenas eternas, do nascimento ao último suspiro. Porque vivo em tempos de quarentenas, com ou sem vírus, desde que me peguei perguntando por que existimos se poderíamos não existir.
E assim sigo em duas frentes: a da quarentena do covid –19 e a minha, que já dura pelo menos três décadas. E me embriago da existência e do álcool em forma de vodka, cerveja ou uísque, e me afogo em lágrimas pelos que sofrem não pelo pensamento, mas pela doença em nosocômios sem um prognóstico de felicidade, apegando-se a um fio de esperança que há muito tempo perdi por tanto pensar e não achar a resposta para o grande enigma que é a vida.
E se vocês encontrarem a resposta para a vida, por favor, guardem-na consigo, porque o vírus há de passar – ainda que leve muito sofrimento, mas a angústia de estar no mundo não.


Uma resposta
Gostei do assunto de sua publicação, gostaria de ver se é pertinente de divulgar em meu site: link acima.
Sds.
Hermes