Vicky, uma mulher trans e muito bem resolvida!

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Primeira servidora pública travesti de Londrina, Vicky Reale é uma mulher batalhadora, militante no movimento LGBT e que não tem medo de aparecer. Ela conversou com O LONDRINENSE sobre sua descoberta como transexual, os problemas, as dificuldades e tudo que envolve se descobrir mulher num corpo de homem

Telma Elorza

Equipe O LONDRINENSE

Ela já não aceita mais ser chamada pelo nome de batismo, que não tem mais nada a ver com quem é agora, com quem vem se descobrindo ser. Seu nome é Vicky, com KY. Vicky Reale. Tem 29 anos e, há cerca de um ano, se descobriu travesti, depois de dois anos de muita terapia. Ainda perdoa as falhas de quem a conheceu como menino mas não quer que os novos conhecidos usem pronome masculino para falar com ela. É uma mulher trans. E quer ser tratada como tal.

Vicky é a primeira travesti servidora pública de Londrina, cargo que conquistou antes da sua descoberta como transexual. “Sou privilegiada. Porque 90% das mulheres trans estão na prostituição pois não conseguem emprego, segundo dados da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais)”, diz. Ela milita para que o quadro mude e, recentemente, participou de uma mesa redonda com gestores de RH. “Conseguimos uma promessa pública que vão receber currículos para contratação de pessoas trans”, conta.

Um menino afeminado que sofreu abusos

A descoberta tardia da transexualidade foi um “momento libertador”, explica. “Não foi simplesmente sair do armário, me assumir trans. Foi realmente uma descoberta . Desde a infância, lidava com seu lado feminino mas tinha na mente que era apenas um menino afeminado”, diz. Uma série de fatores – pais católicos fervorosos, abusos sexuais que sofreu, conceitos errôneos que ouviu – reprimiu sua espontaneidade.

“Desde a infância, as pessoas tentaram me enquadrar dentro de uma caixinha. Sempre escutava das pessoas assim: ‘vira homem, toma jeito de homem, ah, esse menino tem jeito de menina’. Meu pai dizia que ser gay era pecado e os gays iam para o inferno. Um dia perguntei a ele que era ser gay, porque eu não sabia. Ele me respondeu que era um homem que fazia sexo oral (não com essas palavras) com outro homem. Isso me marcou muito porque, nessa época, eu já tinha sido abusada sexualmente e o cara me obrigou a fazer sexo oral. Eu não podia contar isso para ninguém porque, se alguém soubesse, eu iria para o inferno”, conta.

Ela não gosta muito de falar sobre o abuso porque, por incrível que pareça, carregou a culpa de ter sido abusada por muito tempo. “Eu achava que era uma criança que fazia sexo, não que estava sendo vítima. Só muito tempo depois, também dentro de um processo de terapia, é que descobri que crianças não fazem sexo, principalmente com adultos”, explica.

“Queria ser como a Britney Spears, me vestir como ela”

Na adolescência, Vicky era fã da Britney Spears, não tanto pela música mas porque achava era linda, sensual e queria dançar como ela. “Eu queria ser como ela, me vestir como ela”, diz. Se sentia realizada quando, nos carnavais ou brincadeiras, podia se vestir de mulher. “Eu me sentia ótima, plena. Eu pensava assim: ‘nossa, queria tanto ter nascido mulher e não homem’. Para mim, eu era um homem com defeito. Na época, não encontrei outras possibilidades de ser, de existência”, explica.

Também na adolescência, surgiu outra questão. Embora afeminada, Vicky namorava meninas. “Minha primeira identidade LGBT foi a de bissexual. Era uma questão de desejo sexual. Gostava de meninas e meninos. Mas por conta de achar que, quem transa uma vez com pessoa do mesmo sexo já é classificado como gay, só namorava meninas”, diz.

Por muitos anos, se colocou como uma pessoa enrustida em seus desejos sexuais, “porque tinha medo de como as pessoas iriam me olhar, o que as pessoas iriam pensar a meu respeito. Ainda mais porque a bissexualidade ainda é uma orientação sexual muito invisível, então não há muita referência sobre o que é ser bissexual. E a bissexualidade é uma identidade plena, não é uma identidade de pessoa em transição”, afirma.

O entendimento com os pais veio somente depois de adulta. “Eu já tinha comprado minha casa, meu carro – tudo com o dinheiro do meu trabalho – e me casado. Eu já tinha me formado, fiz pós-graduação, sou aluna especial no mestrado da UEL de Comunicação. Eu cumpri minhas obrigações sociais enquanto filha e meus pais não tinham muito mais que falar sobre nada disso”, explica.

Quando se descobriu travesti, já sabia como relatar e conversar com eles, uma coisa que a maioria das pessoas trans não sabem porque passam pelo processo mais jovens. “Agora eles aceitam numa boa. A minha mãe já me trata no feminino. Meu pai ainda tem algumas dificuldades mas ele me respeita e aceita também”, afirma. De acordo com ela, o pai sabe que é uma militante LGBT nos movimentos sociais da cidade, que é até referência nesse sentido, “então ele me respeita por conta disso também”, diz.

“Não é só colocar uma peruca e está tudo certo. São anos de tratamento”

Vicky ainda não começou o processo de hormonização – talvez, nem tenha interesse em fazer a cirurgia de redesignação sexual – mas está em pleno processo de transformação e ainda há muito passos a serem seguidos. “Não é uma coisa que acontece naturalmente. Não é só colocar uma peruca e está tudo certo. São anos de tratamento para a pessoa se readequar a seu verdadeiro gênero, aquele que se sente confortável”, explica.

Segundo ela, também não pode ser cobrada uma cirurgia ou uma hormonização para ser considerada uma mulher trans. “Isso vem muito de como a gente se sente. Não teria o porquê, por exemplo, eu falar que sou uma travesti, uma mulher trans, se de fato eu não fosse. Eu teria muito mais privilégios como homem cisgênero na nossa sociedade, que é estruturada pelo patriarcado, machista. E a figura da travesti é uma subversão dessa ideia. Porque é como se o homem abdicasse os privilégios dele e dissesse ‘não quero ser homem, eu prefiro ser mulher’. É um choque, um ruído no nosso sistema. Nosso corpo trans andando nas ruas, vivendo na sociedade, é forma de dizer ‘olha, esse sistema é falho por causa dessas pessoas’. Tanto que nossa expectativa de vida é de apenas 35 anos de idade, né? Isso é muito péssimo”, aponta.

Para ela, a principal dificuldade em ser uma mulher trans é saber que seu corpo político coloca as pessoas que gosta em ameaça. “Ser uma travesti na nossa sociedade não é apenas você se expor ao risco das pessoas transfóbicas ao seu redor. É também submeter as pessoas que vivem com você a esse risco. Porque estar na rua perto de uma travesti é perigoso. Se apresentar junto com uma travesti é vexatório, é humilhante. A gente está lutando para mudar esse tipo de olhar, de concepção, mas ainda existe muito isso”, afirma.

Se sair na rua com um vestido, a galera vai pensar que é apresentação artística”

Outra dificuldade é poder sair de casa sem chamar a atenção, vestindo as roupas que se sente bem. “Vamos ser, sempre, o centro das atenções só pelo jeito da gente se vestir, pelo nosso porte. Não precisa nem abrir a boca. Só pelo jeito de andar, a pessoa olha para nós com olhar de ‘nossa, que pessoa estranha”, conta.

Ela diz que é preciso se adaptar a essa vida na qual, publicamente, vai ser uma pessoa visada. “Isso traz um grande desgaste mental, porque a gente não consegue viver como a pessoa normal que somos. Sempre seremos visados. Para ter sossego, teríamos que nos vestir como os sexos biológicos determinados se vestem. Se eu sair na rua com roupa de homem, não acontece nada. Mas sair com um vestido, a galera vai olhar como se eu estivesse fazendo uma performance artística, é fato”, relata.

O dia em que foi trabalhar vestida de mulher e parou a prefeitura


“Todo preconceito é uma ignorância. Mas você sente quando a intenção da pessoa não é de agredir, não é atacar”

Ela nunca vai esquecer a primeira vez que foi totalmente feminina para o trabalho, um marco na vida e uma declaração política.  “Eu sempre me masculinizei para ir trabalhar. Mas, para mim, aquilo era ridículo porque era como se estivesse me fantasiando de homem. No dia seguinte das eleições, decidi ir vestida de mulher, porque, simbolicamente, não podia voltar atrás”, conta.

Para ela, ir feminina ao trabalho era uma questão política, principalmente pela conhecida aversão do novo presidente aos homossexuais e trans. “Eu tinha que usar esse meu privilégio de alguma forma, não queria mais me esconder em armário nenhum. Me emperiquitei e fui mega feminina”, conta. Ela parou a prefeitura. “Eu acho que fui o assunto da janta de todos os servidores naquele dia. A galera me olhou como se eu fosse fazer dar um show”, brinca.

Das mulheres, sentiu empatia, até das mais conservadoras. “Lógico que algumas olharam meio torto, mas a maioria adorou e me deu a maior força”, conta. Mas os homens…. “Me olharam com medo, tipo: ‘meu, cara, o que você está fazendo? Esse cara ficou louco’. Porque eu sempre conversei com os caras e, há tempos atrás, eu participava de rodas e acessos que só são permitidos aos homens. Você nos traiu, senti pelo olhar, pensavam”, diz.

Para ela, também foi uma revelação. “Sem estar produzida de forma feminina, as pessoas não têm respeito, é como se eu fosse um viadinho que todo mundo pode bater. Mas quando estou feminilizada, unhas feitas, vestido, eu não pareço um homem feminino. Eu pareço, sim, uma travesti, tipo uma mulher-muito-macho, não um cara-muito-fêmea. E a mulher-muito-macho assusta esses caras, porque estão acostumados a colocar a mulher para sua subserviência. Não estão acostumados a uma mulher que tem o mesmo tipo de musculatura deles. Isso choca um pouco a galera, porque questiona o machismo do cara, a própria pessoa”, explica.

“Quando os estranhos me tratam no feminino, me sinto realizada”

A questão da transexualidade são processos que se vai vivenciando aos poucos. No começo, por exemplo, ela falava que não iria fazer  hormonização e que não tinha vontade de colocar prótese de silicone. “Aí, conforme eu fui me libertando, saindo sempre vestida com roupas femininas, eu tive mais necessidades. O que me incomodava era gente estranha me tratando no masculino. Quando pessoas estranhas me tratam no feminino, para mim isso é muito bom. Me sinto realizada. Então acho que, com o tempo, conforme a gente vai vivenciando a transexualidade, a gente vai entendendo como bom ser reconhecida”, diz

Segundo ela, aí que vem a necessidade do enquadramento do corpo também. “Ainda existe muito padrão, muito enquadramento do que é ser homem e ser mulher, padrões estéticos, de comportamento, de expressões. Se não se enquadra nesses padrões, você vai ser categorizada enquanto homem. Eu me ofendo quando me chamam de homem. Para mim é como se fosse um insulto, sabe?”, conta.

Foi fácil tomar a decisão de assumir sua transexualidade? Não. Ela passou mal, sofreu, sentiu dores, ficou com ansiedade a flor da pele. “Era uma coisa assim: agora não tem volta. É como se tivesse aparecido uma luz no fim do túnel mas, ao mesmo tempo, eu sabia que ia encontrar muitos desafios, sabendo que ia entrar numa ‘morte social’ e isso é pesado na cabeça da gente. Porque ser trans, principalmente no Brasil, é pedir para morrer sua reputação social, destruir seu círculo de vivência social e ter que reconstruir tudo, fazer novas relações com as pessoas. É como se você matasse a pessoa que você era e renascesse como uma nova. É muito louco”, afirma.

Lidar com o preconceito também é difícil. Mas, dependendo do tipo de preconceito, a reação é uma ou outra. “Todo preconceito é uma ignorância. Mas você sente quando a intenção da pessoa não é de agredir, não é atacar. Nessas situações, eu procuro ser mega pedagógica para fazer a pessoas entenderem. Não teria obrigação de fazer isso mas ninguém vai fazer. Se não formos nós, as pessoas trans, falarmos o que nós somos, elas vão pensar e falar o que nós somos. Então a gente tem que falar. Eu não sou um simples menino afeminado. Eu sou uma travesti, que assim, assim, assado. Aí sempre vem mil perguntas”, explica.

“Agora, quando vejo que a pessoa está sendo uma cretina, aí eu respondo à altura dela ou tipo uma cretinice ainda maior. Porque a gente sabe o que é medo, a gente sabe o que é dor, o que é violência. A maior parte das travestis sabe o que é isso. Então se tiver que ser radical, fria e extrema, a gente também consegue. Isso para defender nossa existência. Temos o que chamamos de ‘política do escândalo’, que muita gente acaba tendo medo da gente por causa disso, mas às vezes é necessário fazer escândalo. Essas pessoas não se dão conta de como estão nos matando pouco a pouco, só com olhares”, afirma.

“Chame pelo nome social. A pessoa lutou muito por sua identidade”

Vicky é casada com uma médica, uma mulher cisgênero bissexual. “Como travesti, só tive um relacionamento, com a minha esposa. Ela é uma pessoa esclarecida, iluminada. Eu falo que sou uma pessoa privilegiada”, diz. E, para encerrar, faz um apelo à mídia e imprensa em geral: “Uma coisa que é muito negativa para nossa saúde mental é ver uma menina trans ser exposta com o nome de batismo masculino. Principalmente quando morre, geralmente assassinada. Não existe necessidade de fazer isso. Aquela pessoa lutou muito por sua identidade e a gente tem que respeitar. As travestis são assassinadas duas vezes quando a mídia não respeita a identidade social dela nem depois de morta. É como se deslegitimasse o nosso nome, nossa identidade que é tão frágil na nossa sociedade”, explica.

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Respostas de 7

    1. Você não precisa ter vergonha de ser trans. Você tem que ter orgulho por lutar todos os dias para ter sua verdadeira identidade de gênero reconhecida. Parabéns por não desistir.

  1. Boa tarde, pessoal do “O Londrinense”!
    Muito legal a reportagem. É importante que as discussões sobre a Diversidade Sexual sejam pautadas pela mídia. Parabenizo a jornalista que fez o perfil da Vicky Reale, pela sensibilidade e o interesse em mostrar a história dos/as transexuais.

    Apenas gostaria de fazer uma observação: a travestilidade e a transexualidade são coisas diferentes. Dentro da psicologia, nos estudos referentes à sexualidade, considera-se “travesti” o homem homossexual que se veste de mulher e se identifica com o COMPORTAMENTO que dentro da nossa cultura considera-se um comportamento de mulher. O travesti não sente desejo de modificar seu corpo e nem nega que seja do sexo masculino. Caso da artista Rogéria (Astolfo) que morreu recentemente. Ora era Rogéria, ora era Astolfo.

    Transexual é aquele/a que, por exemplo, nasceu do sexo masculino mas que se reconhece desde a infância como uma mulher. A tal ponto que rejeita seu corpo e quando tem a oportunidade de fazer a resignação de sexo, o faz. Caso da Roberta Close (mulher trans) e do João Nery (homem trans).

    Em alguns trechos da matéria utiliza-se as palavras trans e travesti como se fossem sinônimos. Como neste trecho, por exemplo “em 29 anos e, há cerca de um ano, se descobriu travesti, depois de dois anos de muita terapia. Ainda perdoa as falhas de quem a conheceu como menino mas não quer que os novos conhecidos usem pronome masculino para falar com ela. É uma mulher trans.”

    Compreendo que isso tenha acontecido porque a própria Vicky Reale não faz essa diferenciação na entrevista. E muitos/as da comunidade LGBTTQI+ não concordam que exista essa classificação tão demarcada para tratar da Diversidade Sexual. Mas do ponto de vista científico (dos estudos da área da sexualidade), transexuais e travestis não devem ser tratados como sinônimos.

    Enfim, trata-se apenas de uma observação conceitual, uma “chatice de leitora” rsrsrs … o mais importante é que esses temas ganhem espaço nos veículos de comunicação e isso já é um grande passo!

    Um abraço a todos e sucesso no projeto!

    1. Oi, Soraia, eu apenas respeitei as definições que a Vicky faz de si mesma. Não fiz uma matéria para discutir esse ou aquele outro conceito, apenas para mostrar a (dura) realidade da transexualidade no Brasil, onde os transexuais enfrentam preconceitos e transfobia no dia a dia. Se é travesti ou mulher trans, o que importa é que ela está enfrentando com dignidade, força e coragem, esse momento de transformação.

    2. Uma travesti, pode sim ser também uma mulher trans. Nem toda mulher trans é travesti e vice-versa, mas uma coisa ñ exclue outra… Mesmo porque Travesti é uma identidade política, de uma pessoa transgênero, reinvindicar a identidade travesti é também ressignificar o sentido pejorativo que foi dado a esse conceito até então. O movimento LGBT e feminista fazem isso com vários termos, ex: Vadia, com a Marcha das Vadias, o termo Bicha também tem outro tom quando é usado por próprios LGBTI… Enfim, se trata de uma disputa de ideias que na minha perspectiva deve prevalecer sobre os estudos acadêmicos, os conceitos de vivência e auto-declarações. A mim ñ interessa como parte da psicologia burguesa nos estuda e categoriza, mesmo porque, quando a gente se torna travesti, deixamos de nos preocupar com essa coisa de rótulos… Por isso digo que é uma superação da binariedade de gênero. Enfim, espero ter contribuído. E Telma, parabéns, a matéria ficou excelente!

  2. Nunca tinha lido uma entrevista tão clara e sincera. Parabéns Vicky, pelas vitórias que alcançou até aqui.
    Parabéns também à equipe do O Londrinense, por abordar esse tema, pois é tão necessário que a sociedade aceite o ser humano como ele é.

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