Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, uma salada deliciosa

Por Marcelo Minka

Depois de assistir a este filme descobri que a quantidade de adjetivos que conheço é limitada. Talvez a melhor maneira de descrever esse absurdo de filme é dizer que o título descreve não só a trama, mas também o que veremos na tela: comédia, drama, ação com cenas de lutas a lá Matrix, bizarrices, multiverso, surpresas, reviravoltas, enfim, só assistindo mesmo pra entender essa salada deliciosa.

Nesses tempos de Instagram e dos últimos suspiros do Facebook, onde tudo é banalizado, copiado e repetido ao extremo, o que se pode dizer deste filme é que ele é também, e sobretudo, original. Dirigido e Roteirizado pelos geniais Daniels, Daniel Kwan e Daniel Scheinert (Um Cadáver para Sobreviver – 2016), Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo explora uma questão muito intimista que joga a personagem central em uma situação completamente absurda e extraordinária, onde o que se procura é um sentido para a vida, ultimamente tão sem sentido.

Michelle Yeoh, aquela atriz de O Tigre e o Dragão (2000) que lutava artes marciais parecendo estar dançando, neste filme interpreta a personagem Evelyn Wang, uma senhora em um casamento sem qualquer motivação, com as finanças desmoronando, problemas com o fisco e com uma filha gay com quem não consegue se comunicar. Dentro desta trama, a grande questão levantada pelos Daniels é que cada escolha que fazemos resulta em um caminho diferente no tecido universal. Por exemplo, se estamos andando na rua e, de repente, paramos para olhar uma vitrine por segundos, isso pode mudar todo nosso futuro. Em voga lá pelos anos 80, não me lembro o nome deste conceito, mas a cada momento que avançamos para o futuro, em outras dimensões existem outras versões de nós mesmos, infinitas versões.

Nesta riqueza de possibilidades, o filme traz dezenas de momentos impagáveis. Um deles é quando Evelyn encontra uma versão de seu marido e este é Indiana Jones em O Templo da Perdição. Outros momentos impagáveis são proporcionados pelos absurdos que os personagens têm que fazer para conseguir mudar de dimensão: comer moscas, sentar em dildos, decepar um dedinho, etc. E a grande sacada disso tudo é que, ao encarar outras versões de si, Evelyn começa a questionar suas próprias escolhas que fez a vida toda, e isso é transformador, para Evelyn e para nós que assistimos.

É claro que um filme tão fora da casinha como este só podia sair do estúdio independente A24, mais preocupado na qualidade do que nos dólares arrecadados, apostando alto na inovação e criatividade, deixando tudo nas mãos dos Daniels. Só ficamos chateados com um momento do filme, é quando ele acaba, ficamos querendo mais.

Em pré-estreia em algumas cidades do país e, provavelmente, espero eu, se Deus quiser, tomara, em cartaz semana que vem em Londrina. Imperdível.

Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas.

Foto: Divulgação

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