Por Telma Elorza
“Faz dois anos que não me relaciono com ninguém. Depois de uma relação bastante tumultuada, na qual rolou até agressão física, com meu último namorado, desisti de procurar alguém. Minha vida sexual se resume a vibradores e estou muito bem com isso, Gozo como nunca gozei antes”.
Recebi esse e-mail comentando a coluna Recebidos da Tia Telma: Uma seleção de vibradores (aliás, essa coluna rendeu muitos e-mails) e, apesar de não ter nenhuma dúvida para responder, eu resolvi comentar aqui porque acho que serve como alerta, inclusive para os homens. Então, vamos lá.
Primeiro de tudo deixa eu contar um segredo de polichenelo (aquele, que todo mundo conhece). Nos últimos anos, está acontecendo uma mudança silenciosa e bastante reveladora na vida sexual de muitas mulheres, principalmente as 35+: o sexo com homens deixou de ser prioridade e, em muitos casos, foi substituido simplesmente por sessões muito satisfatórias de masturbação com vibradores. E não, não é exagero, nem “drama da internet” e muito menos vozes da minha cabeça.
“E por quê, Tia Telma”? Essa é fácil de responder. Tudo isso é consequência direta de um amontoado de frustrações acumuladas, expectativas não atendidas, muita violência e feminicídios estimulados pela misoginia Red Pill e, principalmente, um novo nível de autonomia feminina.
As mulheres estão simplesmente tentando se proteger, evitando relacionamentos com caras que mal sabem onde fica o clitóris (e quando sabem, nem se importam), caras que acham que mulher deve ser submissa ao homem, que impedem o crescimento pessoal dela. E, ao mesmo tempo, elas não querem abrir mão do prazer.
Durante séculos, o sexo e o prazer foi estruturado em torno do orgasmo masculino. Isso não é opinião, isso é fato, sustentado por pesquisas sobre o chamado “gap do orgasmo”: a disparidade consistente na frequência de orgasmos entre homens e mulheres durante relações sexuais entre heterossexuais. Essas pesquisas mostram que homens atingem o orgasmo com muito mais frequência (9 em cada 10 vezes) do que as mulheres (4 a cada 10). Ou seja, o sexo com parceiro está muito insatisfatório para as, mulheres.
Aí entra o vibrador (de qualquer tipo, como um simples bullet, o menorzinho que existe, menor até que um absorvente interno). O vibrador não falha, não tem pressa, não perde o interesse e não depende que a gente ensine o caminho para nos fazer gozar. Ele faz exatamente aquilo que a gente quer, nos dá orgasmos (muitas vezes, mais que um). Sem ego masculino, sem insegurança, sem técnicas sexuais aprendidas em muitos vídeos pornô.
E, gente, isso é libertador. Sou uma mulher vivida, de quase 62 anos, fui casada, tive muitos namorados, rolos e casos durante toda minha vida sexual. E posso falar com segurança que cansa transar com caras que mal sabem o básico.
Posso contar nos dedos de uma mão os caras que chegaram até mim realmente bons de cama. Alguns eu treinei bem, para saber dar prazer de qualidade (hoje, fazem outras mulheres felizes. Obrigada, de nada). A maioria, eu simplesmente desisti e parti para outro. Ter vibradores me livrou da maioria das frustrações sexuais com esses que desisti. Então, eu entendo muito bem a leitora e quem mais baseia seu orgasmo num vibrador.
Mas nessa de só se relacionar com brinquedinhos tem um problema. Existe uma coisa chamada relações humanas. Sexo não é só orgasmo e pronto. É muito bom, sim, se masturbar, conhecer o próprio corpo, ter praticidade, garantir seus orgasmos e tals. Mas e a conexão, a cumplicidade, a escuta (antes e pós sexo)? Sempre vai faltar algo, um beijo na boca, um abraço apertado, o toque de pele com pele, suor, saliva. Isso vibrador nenhum substitui.
Para não ser substituído por vibrador
E é, por isso, que faço um apelo aos homens. Se vocês querem deixar de serem substituídos por vibradores, é preciso rever posturas comportamentais, que estão entranhadas aí, na cabecinha de vocês. Está faltando diálogo, interesse genuíno em entender a mulher e seu corpo, falta disposição de sair do roteiro básico ensinado pela sociedade machista. Falta o respeito pela mulher. A gente está cansada de ser tratada como um objeto, está cansada de ser apenas receptáculo de sêmen e de uma performance sexual meia boca.
As mulheres estão mudando. Estão ficando cada vez mais independentes, mais conscientes dos próprios corpos (tá, ainda sofremos com ENORMES pressões externas sobre nossa aparência, mas tenho fé que vamos nos libertar totalmente disso algum dia) e muito menos dispostas a tolerar experiências ruins na cama só para manter um relacionamento ou alimentar ego masculino. Agora é preciso que os homens também mudem.
Aquela ideia antiga de que sexo onde só o prazer do homem conta, que a mulher tem que aceitar e ficar quieta, deve ir pro lixo urgentemente. Enquanto os homens estiverem operando na frequência antiga, o resultado será sempre o descompasso no relacionamento e nas relações sexuais. E se nós, mulheres, conseguimos mais orgasmos com um vibrador do que acompanhadas, quem vai sair perdendo?
“Ah, tia Telma, mas as mulheres não vão querer mais homens?” Não. Essa é uma leitura muito da preguiçosa. O que está acontecendo é uma filtragem mais rigorosa. O sexo – e o relacionamento – com outra pessoa precisa apenas valer a pena, realmente ser algo digno. O homem, hoje, precisa ter um “padrão de qualidade” e isso não é exigir demais. É apenas não mais aceitar algo que nos deixa infelizes.
Por isso, cara, você gostando ou não, precisa fazer uma revisão geral, em comportamentos, mentalidade e respeito à mulher. Porque, para competir com um vibrador, você precisa ser relevante como um todo.
Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre sexo? Mande sua pergunta para telma@olondrinense.com.br
Quem é Tia Telma?

Telma Elorza é jornalista, divorciada, xereta por natureza e que sempre se interessou muito por sexo. Com a vida, aprendeu várias coisas, mas a principal é que sexo é uma coisa natural e deve ser sempre prazeroso.
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