Por Telma Elorza
Hoje, a coluna vai ser um pouco diferente. Nosso assunto ainda é sexo, mas desta vez, como um alerta, principalmente para quem vive nas redes sociais. E quem não vive, hoje em dia?
Há algo de profundamente doente no jeito como o sexo virou mercadoria nas redes sociais e, pior, como crianças e adolescentes estão sendo engolidos por esse mercado enquanto adultos fingem surpresa.
A cada nova polêmica envolvendo exploração, “adultização” ou conteúdos explícitos que “escapam” (será que escapam mesmo ou é de propósito?) pelos filtros das plataformas, a internet reage com indignação barulhenta. Dois dias depois, tudo volta ao normal, o feed rola e o algoritmo agradece.
Plataformas como a Meta, dona do Instagram, e o TikTok vivem anunciando políticas rígidas contra a exploração sexual infantil, mas continuam lucrando e permitindo essa mesma exploração. No discurso, tolerância zero. Na prática, qualquer criança e adolescente com curiosidade e acesso ilimitado às redes, descobre, em minutos, conteúdos altamente sexualizados (e nada educativos), perfis duvidosos e abordagens suspeitas de pedófilos. E isso é apenas uma constatação.
Você sabe que não sou moralista, que acredito que sexo é natural e deve ser feito e bem feito. Mas entre adultos, conscientes e com consentimento mútuo. Não é assunto para crianças e adolescentes que estão descobrindo a vida, que não sabem disitinguir o que é bom e o que é ruim, simplesmente porque estão sem orientação e fiscalização.
Por isso, vejo uma hipocrisia coletiva nesse debate. Parte da sociedade que grita “censura” quando se fala em uma regulamentação mais dura, mas se horroriza quando surge um caso escandaloso (e surgem, um atrás do outro, praticamente todos os dias) envolvendo menores. Não dá para querer liberdade irrestrita de publicação e, ao mesmo tempo, proteger crianças. Elas não sabem se proteger sozinhas, num ambiente projetado para estimular desejo, exposição e validação a qualquer custo.
Enquanto adultos brigam por ideologia, crianças e adolescentes estão sendo expostos a estímulos que não conseguem compreender e que podem NORMALIZAR O ABUSO. A cultura do “engajamento” transforma corpos em produtos. Likes viram meta a ser atingida, moeda de troca. O limite entre a autoestima e a exploração fica tênue. E quem não tem maturidade emocional, acaba aprendendo sobre sexo da pior forma possível, no olhar distorcido a pornografia e hipersexualização digitial. Não bastassem os sites de vídeos pornôs que estão “instruindo” erroneamente gerações de homens que objetificam o corpo da mulher, agora as crianças e adolescentes estão sofrendo o mesmo nas redes sociais.
E é aqui que entro eu, batendo na mesma tecla de sempre e que muita gente ainda trava quando o assunto é esse: educação sexual.
Porque muita gente ainda vê educação sexual como incentivo à prática precoce de sexo. NÃO É. Educação sexual é ferramenta de proteção para crianças e adolescentes. É escudo, prevenção. É ensinar para a criança que o corpo dela tem limites. Que ninguém pode tocá-la. Que “segredos” envolvendo a genitália são sinal de alerta e que o desconforto que ela sente não pode ser ignorado. E que precisa procurar um adulto que ela confie (mãe, professora, tia, avó) para contar o que está acontecendo.
Para os adolescentes é ainda mais urgente que obtenham orientação sexual de qualidade. Eles precisam entender o que é CONSENTIMENTO DE VERDADE e o que é manipulação emocional. Aprender o que é grooming – o processo lento de aliciamento que começa com elogios e termina com chantagem. Precisam saber que enviar fotos íntimas pode virar armas contra eles, Precisam aprender que relações sexuais entre adulto e menor não é romance proibido, é CRIME.
Se essa base, a internet vira a única educadora. E ela não ensina responsabilidade; ensina performance. Ensina que exposição traz recompensa, que quanto mais ousado, maior o alcance, mais likes. Jovens passam a confundir validação com afeto real e a popularidade, como seu valor pessoal. E os predadores nadam de braçada.
O Congresso Nacional pode discutir leis, aumentar penas, pressionar as plataformas. Sim, tudo isso é necessário. Mas repressão sem prevenção é enxugar gelo. Quando o abuso já aconteceu, o dano emocional é, muitas vezes, irreversível. A proteção precisa começar antes, dentro da própria família e na escola.
E sabe como começa? Com informação clara, adequada à idade da criança e livre de histeria moral. Falar sobre o corpo, limites, respeito e consentimento não erotiza e sexualiza a infância. O que erotiza é a exploração comercial e a omissão dos adultos responsáveis. O silêncio não preserva a inocência, só a ignorância. Muitos jovens me escrevem aqui sobre assuntos básicos, porque não tiveram acesso dentro de casa.
O problema não é discutir sexo com responsabilidade. O problema é deixar que o algoritmo faça isso no nosso lugar, porque ele não é ético, não tem interesse em proteger (enquanto a exploração sexual estiver dando dinheiro). Ele só quer retenção e atenção.
Se queremos menos casos de exploração sexual e menos vítimas de pedofilia, precisamos de parar de tratar educação sexual como tabu ou pauta ideológica. Precisamos naturalizar falar de sexo com nosso filhos, dar orientações, esclarecer dúvidas. Crianças e adolescentes precisam de conhecimento para identificar abuso, precisam reconhecer sinais de manipulação. Precisam entender que têm direito de dizer não, inclusive no ambiente digital. Deixá-las na ignorância sobre sexo não protege ninguém. Só facilita para quem quer explorar e abusar.
A escolha é simples: continuar reagindo indignado a escândalos ou investir de fato em prevenção. O resto é discurso vazio.
Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre sexo? Mande sua pergunta para telma@olondrinense.com.br
Quem é Tia Telma?

Telma Elorza é jornalista, divorciada, xereta por natureza e que sempre se interessou muito por sexo. Com a vida, aprendeu várias coisas, mas a principal é que sexo é uma coisa natural e deve ser sempre prazeroso.
Leia mais colunas Tia Telma Responde
Siga O LONDRINENSE no Instagram e Facebook
(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINENSE.


