“Isso é normal?”

TIATELMA (2)

Por Telma Elorza

“Tenho 28 anos e já tive relacionamentos sexuais com namorados e ficantes. Mas nunca deixo de me espantar com algumas coisas que acontecem no sexo e sempre me pergunto ‘isso é normal?’. O que é ou não normal no sexo?”

Ai, amiga, você generalizou tanto que não deu indicação nenhuma do que está a deixando confusa. Mas, vamos lá, vou tentar responder de forma genérica também, porque as perguntas que recebo aqui, na coluna, geralmente terminam com essa pergunta: “isso é normal?”

Então, vou apontar algumas que recebi ao longo dos quase 7 anos que escrevo o Tia Telma Responde:

  • É normal sentir pouco ou muito desejo? É normal não gozar sempre? É normal demorar, precisar de estímulo externo, de conversa para sentir tesão? É normal gostar de uma coisa hoje e amanhã, não? É normal gozar só com oral? É normal não gostar de dar o koo? É normal ter nojo de fazer oral no companheiro? É normal não gostar de alguns fetiches do companheiro? É normal nunca gozar só com penetração (spoiler: sim). Enfim, por aí vai.

Como você pode notar, a maioria das perguntas gira em torno do próprio corpo e da própria cabeça, quase nunca da técnica. E aí ficam se perguntando o que há de “errado” com elas. Mas não há nada de errado com suas dúvidas. O que falta é informação, diálogo e, muitas vezes, um parceiro disposto a aprender e ser isso, um parceiro.

“Isso é normal?” — a pergunta que persegue as mulheres

A maioria das dúvidas surge por uma educação sexual deficitária. Já bati nesta tecla inúmeras vezes, inclusive sobre os perigos que a falta de uma boa educação sexual pode trazer para a vida de crianças e adolescentes.

As dúvidas começam cedo, muito cedo. As meninas crescem aprendendo que os corpos delas são problemas em potencial: sangram todo mês (e não pode falar livremente sobre menstruação e o que estão sentindo), engordam, “provocam”, precisam ser recatadas e do lar (nada de masturbação que, segundo a sociedade cristã, é pecado), engravidam, enfim, dão trabalho. Isso sem falar da cobrança para estarem sempre bonitas, magras, arrumadas e perfumadas, quietas, meigas, delicadas, etc.

Quando chegam à idade adulta, elas já estão treinadas para desconfiar de tudo o que sentem e não sabem o que é ou não “normal”. Tesão demais? Pouco tesão? Nossa, estranho também. Vontade sexo hoje, zero amanhã? “Ah, tem algo errado com meu corpo”. E geralmente não tem.

Na hora do sexo, então, a pergunta se repete insistentemente. “É normal não gozar sempre?” Sim, é. “Nunca ter gozado com penetração”? É comum. “Precisar de estímulos no clitóris para gozar”? Totalmente. Mas, como ninguém explicou isso claramente, as mulheres crescem achando que o defeito é delas, que o corpo tá errado. O problema real, no entanto, é a expectativa irreal criada em cima desses corpos.

O orgasmo feminino, por exemplo, virou uma espécie de prova de competência. Se ele não acontece, a culpa costuma cair no colo da mulher, nunca do homem que pode ser um “fode-mal” e não tem a mínima noção do que fazer com uma mulher real, treinado que foi por vídeos pornôs com atrizes que figem tesão só de ver um pau avantajado. Se ela não goza, não é porque ele não achou o clitóris. É porque ela não relaxa, pensa demais, “não se entrega ao momento”. Nunca se questiona a qualidade do desempenho masculino, é mais fácil botar a culpa em quem foi treinada para se culpar sempre.

Não ter desejo ou ter uma grande variação, com um dia louca de tesão e no outro, não, é a coisa mais comum do mundo. Vivemos numa cultura onde a mulher deve estar sempre disposta para o homem (recatamente, claro), principalmente no casamento. Se ela não quer, algo está errado com ela ou com o relacionamento. Raramente se considera o cansaço crônico, a sobrecarga mental, a rotina esmagadora de dupla ou tripla jornada da mulher. Ou o simples fato que sexo ruim não dá vontade de repetir.

Normal nas fantasias?

A pergunta também aparece quando a mulher gosta do que “não deveria”. Fantasias, fetiches, curiosidades, tudo vira motivo de alerta interno. “Será que sou estranha? Não, estranho é fingir que não sente vontade ou necessidade daquilo. Nem todo mundo gosta das mesmas coisas, do mesmo jeito, na mesma intensidade. E tá tudo bem.

Agora, se o que você questiona são as práticas sexuais dos seus parceiros, ao longo da vida, eu só posso dizer uma coisa: você realmente deve querer fazê-las, por vontade sua. Ou seja, o verdadeiro consentimento é quando você também quer, só a ideia dessa prática lhe dá tesão. Fazer algo que repulsivo para agradar o companheiro não é consentir. O “normal” aqui é o que seja bom e prazeroso para os dois.

Então, vamos resumir: normal é tudo que lhe dá prazer. É não caber em nenhum manual de “como deveria ser”. Anormal é achar que você tá errada, que existe um único padrão de desejo, orgasmos e comportamento sexual. Gostaria muito que as mulheres entendessem isso. Talvez a pergunta “isso é normal?” não apareceria tanto por aqui, na coluna, e o sexo fosse mais leve, honesto e prazeroso para todos.

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre sexo? Mande sua pergunta para telma@olondrinense.com.br

Quem é Tia Telma?

Quase todas perguntas que recebo aqui, na coluna, terminam com um "isso é normal?" A leitora, desta vez, generalizou demais, mas vou explicar o que é normal no sexo.
Tia Telma versão Inteligência Artificial

Telma Elorza é jornalista, divorciada, xereta por natureza e que sempre se interessou muito por sexo. Com a vida, aprendeu várias coisas, mas a principal é que sexo é uma coisa natural e deve ser sempre prazeroso.

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