Por Telma Elorza
“Sou uma mulher de 29 anos, muito religiosa. Casei virgem com meu segundo namorado. O primeiro não quis respeitar minha decisão de esperar o casamento para fazer sexo. Estamos juntos há oito anos. Por uma acaso, li uma coluna sua e acabei me tornando uma leitora fiel. Percebi, com suas colunas, que minha vida sexual é muito esquisita. Não vou entrar em detalhes que não importam nesse momento (outra hora eu volto para perguntar mais coisas), mas o que gostaria que você respondesse agora é se a mulher é obrigada a aceitar tudo que o marido quer na cama, como dizem na igreja? Não tenho coragem de perguntar para mais ninguém.”
Ah, minha amiga. Que bom que descobriu a coluna, tenho uma enorme satisfação em ver que posso ajudar não só você, mas também milhares de mulheres que podem ter as mesmas dúvidas. Então, vamos lá.
Você fez uma pergunta corajosa e necessária. Corajosa porque mexe com crenças profundas, aprendidas desde cedo, na maioria das religiões. Necessária porque envolve algo básico: o direito da mulher sobre o próprio corpo, inclusive dentro do casamento.
Vamos começar pelo ponto mais importante e sem rodeios: não, a mulher não precisa aceitar tudo que o marido quer no sexo. Nem a igreja, nem o registro civil, nem lugar nenhum dá o direito total do marido ao seu corpo. Sexo só é saudável quando existe o consentimento verdadeiro: a sua vontade de fazer alguma prática sexual, porque você quer, por sentir vontade. Consentimento não é “fazer por obrigação”, muito menos “aguentar” alguma prática que você não gosta só porque é esposa.
O problema é que a educação religiosa sobrepõe-se a educação sexual para as meninas. Mulheres religiosas numa ouviram que o corpo é seu e que, portanto, precisa dar seu consentimento. Pelo contrário. Desde cedo, meninas são condicionadas a obedecer, a se calar e a não questionar. Aprendem que seu corpo é sujo, perigoso ou fonte de pecado, enquanto o desejo masculino é tratado como algo natural e inevitável. Esse desiquilíbrio não é espiritual, é cultural.
A falta de educação sexual para meninas é gritante. Não se ensina sobre o corpo, o que é prazer feminino, limites, comunicação, desejo ou autonomia. Ensina-se medo, culpa. Ensina-se que a “boa mulher” é que se anula “pelo bem do casamento” que, aliás, torna-se praticamente obrigatório. E isso não prepara ninguém para uma vida sexual saudável, muito menos para um relacionamento sexual equilibrado.
Quando algumas igrejas dizem que a mulher deve “servir” o marido sexualmente, estão distorcendo completamente a ideia de parceria. Casamento não é hierarquia. Não é contrato de posse. É convivência entre dois adultos inteiros, com vontades, limites e necessidades que importam igualmente. Qualquer relação em que um manda e o outro obedece não é amor, é controle.
Sexo é encontro, não obrigação
E aqui é preciso ser clara: ninguém, absolutamente ninguém, pode obrigar você a fazer algo sexualmente contra sua vontade. Isso vale mesmo quando há aliança no dedo, mesmo quando existe fé, mesmo quando há amor. Forçar, pressionar ou manipular emocionalmente não é “direito conjugal”. É violência, ainda que venha embrulhada em discursos religiosos.
Muitas mulheres só percebem que algo está errado quando entram em contato com outras narrativas, como aconteceu com você ao ler meus textos fora do ambiente da igreja. De repente, aquilo que sempre pareceu “normal” começa a soar estranho. E isso não significa que você está errada ou se afastando de Deus. Significa que você está pensando.
Questionar não é pecado. Sofrer em silêncio, sim, é um problema sério.
Um casamento saudável exige diálogo honesto sobre sexo. Exige escuta. Exige respeito aos limites. Exige que o prazer não seja unilateral. Se você nunca aprendeu a identificar o que gosta ou não gosta, isso não é falha sua, é consequência direta da educação que recebeu. Mas agora, adulta, você tem o direito (e a responsabilidade consigo mesma) de buscar informação, reflexão e, se possível, ajuda profissional.
Fé não deveria ser usada para aprisionar mulheres, e sim para fortalecê-las. Qualquer discurso religioso que normalize a submissão feminina irrestrita precisa, sim, ser criticado. Não para atacar a espiritualidade, mas para defender a dignidade humana.
Você não é estranha. Você não é errada. E você não deve nada ao mundo — muito menos na cama. Sexo só faz sentido quando é encontro, não obrigação. Quando é escolha, não medo. Quando é vontade, não silêncio.
E, quando quiser, volte mesmo para conversar mais. Informação liberta. E mulher bem informada é mulher menos manipulável.
Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre sexo? Mande sua pergunta para telma@olondrinense.com.br
Quem é Tia Telma?

Telma Elorza é jornalista, divorciada, xereta por natureza e que sempre se interessou muito por sexo. Com a vida, aprendeu várias coisas, mas a principal é que sexo é uma coisa natural e deve ser sempre prazeroso.
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