Por professor Renato Munhoz
2026 será, nesta coluna, um ano de muitas conexões. Conexões entre saberes, territórios, culturas e tempos. Mas, sobretudo, conexões com o essencial: nossa relação com a casa que habitamos e que chamamos de planeta Terra. Em meio a tantos debates técnicos, metas climáticas, indicadores e conferências, talvez seja hora de resgatar um termo — e uma visão de mundo — capaz de nos devolver algo que perdemos no caminho.
Quando meus parentes colonizadores chegaram à América, encontraram aqui muito mais do que terras férteis e riquezas naturais. Encontraram uma visão de mundo profundamente orgânica, integrada e relacional com a terra. Uma forma de compreender a existência em que tudo se entrelaça, se sustenta e se afeta mutuamente. Essa visão, presente nos povos originários, continua viva e necessária — inclusive para nós, que não somos nativos desta terra no sentido ancestral.
Um dos conceitos mais potentes para compreendermos isso vem dos povos andinos: Pachamama. Mais do que “Mãe Terra”, Pachamama expressa a ideia de tempo, espaço, vida e território como uma totalidade viva. Não se trata de um recurso a ser explorado, mas de um ser com o qual se estabelece relação, respeito e reciprocidade. Cuidar da terra, nesse sentido, não é um gesto ecológico isolado, mas um compromisso ético e espiritual com o equilíbrio da vida.
Aqui no sul do Brasil, entre os povos Guarani, encontramos uma concepção semelhante. Para eles, a terra — Yvy — não é mercadoria, é lugar de pertencimento e de espiritualidade. O bem viver, ou teko porã, está diretamente ligado à harmonia entre as pessoas, a comunidade, a natureza e o sagrado. O território é extensão da vida, e caminhar sobre ele exige cuidado, escuta e respeito. Não é por acaso que a relação dos Guarani com a floresta, com a água e com os ciclos naturais ensina tanto sobre limites, partilha e coletividade.

Na Amazônia, o povo Yanomami nos oferece outra chave fundamental para entender essa casa comum. Em A Queda do Céu, Davi Kopenawa nos alerta que, ao destruir a floresta, estamos colocando em risco não apenas um bioma, mas o próprio equilíbrio do mundo. Para os Yanomami, a floresta está viva, sustentada por espíritos, saberes e relações que garantem a continuidade da existência. Quando a floresta adoece, o mundo todo adoece. Não é uma metáfora poética: é uma constatação profunda sobre interdependência.
Experiências concretas em territórios
Essas visões nascem de antropologias locais, de experiências concretas com territórios específicos. Mas, quando colocadas em diálogo, constroem algo maior: uma compreensão ampliada da vida como rede, como relação, como cuidado. Autores como Ailton Krenak nos lembram que a ideia moderna de humanidade separada da natureza é uma invenção recente — e perigosa. Daniel Munduruku reforça que os povos indígenas não defendem a natureza como algo externo, mas como parte de si mesmos.
Talvez seja justamente isso que precisamos reaprender em 2026: não como salvar o planeta, mas como voltar a nos perceber pertencentes a Terra. Entender o comportamento dos povos indígenas no cuidado com essa casa sagrada não é romantizar o passado, mas reconhecer que existem outros modos — mais sustentáveis, mais sensíveis e mais justos — de habitar o mundo.
Que esta coluna, ao longo do ano, seja um espaço de escuta, reconexão e aprendizado. Porque, no fundo, sustentabilidade não é apenas sobre futuro. É sobre memória, vínculo e responsabilidade com tudo o que vive.
Foto principal: site Peruanos
Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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