Por professor Renato Munhoz
O dia 8 de março, celebrado mundialmente como o Dia Internacional da Mulher, costuma ser lembrado como um marco das lutas femininas por direitos, dignidade e igualdade. No entanto, essa data também nos convida a uma reflexão mais profunda: que visão de mundo construímos ao longo da história quando o feminino foi sendo silenciado, desvalorizado ou excluído das estruturas de poder?
Nos últimos anos, um conceito tem ganhado força em diferentes campos do conhecimento, da espiritualidade e da educação: o sagrado feminino. Muito além de um discurso religioso ou místico, ele representa uma tentativa de recuperar uma dimensão esquecida da humanidade — a percepção de que a vida se sustenta a partir do cuidado, da interdependência e da harmonia com a natureza.
As raízes do sagrado feminino

Diversos estudos em história, arqueologia e antropologia mostram que muitas das primeiras civilizações humanas possuíam uma profunda reverência pela dimensão feminina da vida. A fertilidade da terra, o nascimento, os ciclos da lua e das estações eram compreendidos como manifestações de uma força vital associada ao feminino.
A arqueóloga lituana Marija Gimbutas, por exemplo, dedicou grande parte de sua pesquisa ao estudo das antigas culturas europeias que cultuavam divindades femininas ligadas à terra e à fertilidade. Para ela, essas sociedades possuíam uma visão de mundo mais integrada entre humanidade e natureza.
Com o surgimento de estruturas sociais mais militarizadas e hierarquizadas, essa percepção foi sendo gradualmente substituída por modelos culturais centrados no domínio, na conquista e no controle. A natureza passou a ser vista como algo a ser explorado, e não mais como um organismo vivo do qual fazemos parte.
Essa crítica aparece de forma muito clara na obra do teólogo brasileiro Leonardo Boff, um dos principais pensadores da ética do cuidado. Em seus textos sobre ecologia integral, ele afirma:
“Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Representa uma ocupação, uma preocupação, uma responsabilização e um envolvimento afetivo com o outro.”
Essa lógica do cuidado, muitas vezes associada culturalmente ao feminino, é hoje considerada por muitos pensadores como uma das chaves para enfrentar a crise ambiental e civilizatória que vivemos.
O feminino como princípio de cuidado
Quando falamos em sagrado feminino, não estamos falando apenas de mulheres. Estamos falando de um princípio civilizatório que reconhece o valor do cuidado, da escuta, da cooperação e da sensibilidade.
A filósofa Vandana Shiva argumenta que a crise ambiental global está profundamente ligada à forma como a modernidade separou humanidade e natureza. Em suas palavras:
“A terra não é uma máquina. A terra é um organismo vivo.”
Segundo ela, muitas mulheres ao redor do mundo mantiveram práticas agrícolas, culturais e comunitárias baseadas na preservação da vida e da diversidade — práticas que hoje se revelam essenciais para a sustentabilidade do planeta.
Assim, recuperar o sagrado feminino significa também recuperar uma forma de olhar o mundo que reconhece a interdependência entre todos os seres vivos.
O papel da educação
Se a crise ambiental é também uma crise de visão de mundo, então a educação tem um papel fundamental nesse processo de transformação.
Educar para a sustentabilidade não é apenas ensinar sobre reciclagem ou preservação ambiental. É ajudar crianças, jovens e adultos a desenvolver uma percepção mais profunda da vida.
Isso passa por estimular valores como empatia, cooperação, respeito à diversidade e responsabilidade coletiva.
Nas escolas, isso pode se traduzir em práticas simples, mas significativas: projetos de cuidado com a natureza, hortas comunitárias, rodas de conversa sobre respeito e diversidade, experiências de convivência que valorizem a cooperação em vez da competição.
Mais do que transmitir conteúdos, trata-se de formar pessoas capazes de compreender que a vida é uma grande rede de relações.
Sustentar o mundo
Talvez o maior ensinamento do sagrado feminino seja justamente este: a vida não se sustenta pela força, mas pelo cuidado.
E cuidar não é um gesto frágil — é um gesto profundamente transformador.
Em tempos de crise ambiental, desigualdade social e conflitos cada vez mais intensos, recuperar essa dimensão pode ser um dos caminhos mais promissores para reconstruir nossa relação com o planeta e com os outros seres humanos.
Celebrar o Dia Internacional da Mulher, portanto, também pode ser um convite para redescobrir essa sabedoria ancestral: a de que sustentar a vida é, antes de tudo, um ato de cuidado.
E talvez seja justamente essa sabedoria que o nosso tempo mais precisa reaprender.
Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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