Por Alessandra Diehl
Imagine caminhar pelas ruas da cidade e ver alguém se movimentando em quatro apoios, imitando um felino, um cachorro ou um lobo? Você certamente já deve ter entrado em contato com vídeos que circulam pela internet, principalmente na plataforma TikTok, de pessoas que entram dentro de carros de aplicativos com coleiras, fazendo gestos de cachorro e se comunicando com latidos? Essa cena te parece algo estranho? Para alguns, sim. Mas para outros, isso é parte de uma identidade chamada therianismo, um fenômeno que mistura psicologia, espiritualidade e cultura digital.
Eu, particularmente como psiquiatra, não tenho opinião formada ainda sobre esse fenômeno, mesmo porque o pouco que sei sobre o tema está sob a ótica de observadora e curiosa à distância, já que não tive a oportunidade ainda de estar próxima de comunidades therians e os poucos artigos da literatura científica que tive acesso nos sinaliza que este universo ainda é muito incipiente e cheio de lacunas a serem esclarecidas.
O que é ser therian?
O termo vem do grego thēríon (animal selvagem) e descreve pessoas que se identificam, em algum nível, com animais não humanos. Não é fantasia, como no caso dos furries (pessoas interessadas em animais antropomórficos com características humanas). Esses criam personagens ou “fursonas” que misturam traços humanos e animais. Já os therians sabem que são humanos, mas sentem uma conexão especial com determinada espécie que desejam ser.
O movimento começou nos anos 1990 em comunidades on-line e ganhou força com as redes sociais. O termo therian começou a ser usado em fóruns e comunidades on-line, especialmente em espaços voltados para espiritualidade alternativa e fandoms ligados a animais. Hoje, práticas como os quadrobics (movimentos em quatro apoios) viralizam no TikTok e chegam onde jovens se reúnem em praças e parques para treinar.
O therianismo não está restrito a um país: comunidades existem na América do Norte, Europa, América Latina e Ásia. Não há números oficiais de quantos therians existem no mundo, mas a popularidade crescente nas redes sociais indica que o movimento está em expansão e cada vez mais visível. Em países como EUA e Brasil, há grupos organizados que se encontram tanto on-line quanto presencialmente, reforçando o aspecto comunitário.
O olhar da ciência
Algumas poucas pesquisas já começam a aparecer. Um estudo publicado em Society & Animals (2019) analisou mais de 100 therians e concluiu que, embora apresentem diferenças em aspectos sociais, não há indícios de psicopatologia severa. Em outras palavras: trata-se de uma forma de identidade, não de doença. O therianismo não é definido pela presença de traumas, embora em alguns casos possa se entrelaçar com experiências emocionais ou psicológicas. Mais do que uma consequência de sofrimento, ele é entendido como uma forma de identidade alternativa, que pode ser saudável e significativa para quem a vivencia.
O Therianthropy é descrito como um fenômeno em que indivíduos se identificam em diferentes graus como animais não-humanos. Essa identidade pode ser espiritual, psicológica ou cultural, e é vivida como algo fundamental, não apenas como hobby ou fantasia. Os estudos destacam a dimensão narrativa e simbólica, mostrando como os therians constroem histórias de vida que reforçam sua identidade animal. Cada pessoa cria uma “história de vida” para dar sentido à sua existência. Alguns relatos sugerem que certos indivíduos encontram no therianismo uma maneira de lidar com sentimentos de desconexão, solidão ou experiências difíceis. Nesses casos, pode funcionar como uma narrativa de pertencimento e ressignificação. Com os therians, essa narrativa inclui experiências, memórias e símbolos relacionados ao animal com o qual se identificam.
Muitos therians descrevem sua vida como uma jornada de descoberta, onde percebem desde cedo uma desconexão com a identidade humana convencional e passam a integrar características animais em sua autoimagem. Essas histórias não ficam apenas no plano mental. Elas se manifestam em práticas corporais (como quadrobics), em espiritualidade ou em comunidades on-line, onde os indivíduos compartilham experiências e reforçam coletivamente sua identidade. Para muitos, assumir uma identidade animal não é fantasia, mas uma forma de encontrar coerência interna e pertencimento, especialmente em contextos onde se sentem deslocados das normas humanas tradicionais.
Há também uma crítica às concepções antropocêntricas de humanidade, propondo que o therianismo desafia fronteiras tradicionais entre humano e animal.

As polêmicas do therianismo
Nem tudo é aceito com tranquilidade. Há quem veja o therianismo como moda ou infantilidade. Dentro da própria comunidade, surgem debates: é uma experiência espiritual, ligada a totemismo e vidas passadas ou apenas uma metáfora psicológica?
E, claro, os quadrobics em público dividem opiniões: expressão legítima ou exposição desnecessária?
A pluralidade identitária
Assim como várias cidades do Brasil abraçam movimentos culturais diversos, o therianismo encontra espaço em nichos locais. Ele reflete uma tendência global: jovens buscando novas formas de se definir e desafiar padrões rígidos de identidade.
O therianismo é mais do que uma curiosidade da internet. É um fenômeno que mistura cultura urbana e identidade. Para uns, é estranho; para outros, é libertador. Mas, acima de tudo, é um retrato da pluralidade identitária dos nossos tempos.

Alessandra Diehl
Psiquiatra, membro do Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Drogas (ABEAD) e membro da Associação Paranaense de Psiquiatria (APPsiq). @dra.alessandradiehl
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