Por Renato Munhoz
Quando falamos em letramento, ainda é comum que o imaginário coletivo o reduza ao ato de ensinar a ler e a escrever. Sem desmerecer a centralidade desse processo — afinal, sem ele não há acesso pleno à vida social — é preciso afirmar com todas as letras: letramento é muito mais do que decodificar palavras. É aprender a ler o mundo, interpretar contextos, lidar com emoções, participar da vida pública e exercer pensamento crítico.
Ao olharmos para 2026, alguns desafios se tornam cada vez mais evidentes. Vivemos uma sociedade marcada por transformações aceleradas, crises emocionais, disputas políticas intensas e uma avalanche de informações — nem sempre verdadeiras. Nesse cenário, três letramentos se mostram preponderantes para a escola e para os processos educativos de modo geral.
Letramento socioemocional: cuidar da saúde mental também é educar
Nunca se falou tanto em saúde mental no ambiente escolar — e isso não é moda, é necessidade. Ansiedade, exaustão, automutilação, dificuldades de convivência e sofrimento emocional têm atravessado o cotidiano de estudantes e educadores. O letramento socioemocional surge, portanto, como um campo fundamental para ensinar crianças, adolescentes e adultos a reconhecer emoções, lidar com frustrações, desenvolver empatia e construir relações mais saudáveis.
Autores como Daniel Goleman, ao tratar da inteligência emocional, e as contribuições mais recentes da Educação Socioemocional no Brasil — inclusive previstas na BNCC — apontam que aprender a nomear sentimentos, escutar o outro e cuidar de si não é algo secundário, mas estruturante. Boas experiências já mostram que projetos de escuta ativa, rodas de conversa e práticas restaurativas reduzem conflitos e fortalecem o sentimento de pertencimento na escola.

Letramento de cidadania: educar em tempos de ano eleitoral
2026 será ano eleitoral, e isso coloca sobre a escola um desafio delicado, mas inadiável: o letramento para a cidadania. Não se trata de doutrinação, como alguns insistem em acusar, mas de formação democrática. Educar para a cidadania é ensinar sobre direitos e deveres, funcionamento das instituições, participação social, ética pública e respeito às diferenças.
Paulo Freire já nos lembrava que não existe educação neutra. O silêncio diante da política também é uma escolha política. Bons exemplos vêm de projetos de grêmios estudantis, simulações de assembleias, debates mediados e estudos sobre a Constituição e o Estatuto da Criança e do Adolescente. Em tempos de polarização, o letramento cidadão ajuda a transformar o conflito em diálogo e a opinião em argumento.
Letramento crítico: pensar é um ato de resistência na era da desinformação
Vivemos a era da desinformação, das fake news e dos discursos de ódio travestidos de opinião. Nesse contexto, o letramento crítico se torna uma das tarefas mais urgentes da educação. Ensinar a perguntar “quem escreveu?”, “com que interesse?”, “essa informação tem fonte?” é tão importante quanto ensinar regras gramaticais.
Inspirados por autores como Bell Hooks, Henry Giroux e pelo próprio Paulo Freire, o letramento crítico convida os estudantes a não aceitarem o mundo como ele está dado, mas a questioná-lo. Experiências com análise de notícias, leitura crítica de redes sociais e produção consciente de conteúdo digital têm mostrado resultados potentes no combate à manipulação e ao pensamento simplista.
Para concluir (sem fechar a conversa)
Falar de letramentos em 2026 é reconhecer que a escola não forma apenas leitores de textos, mas leitores da vida. Letrar é ensinar a sentir, a conviver, a participar e a pensar. Não é tarefa fácil, tampouco rápida, mas é urgente.
Que possamos seguir ampliando o sentido da educação, sem pesar a mão — mas também sem aliviar demais — afinal, educar sempre foi, e continuará sendo, um ato profundamente humano.
Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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