Por professor Renato Munhoz
A Inteligência Artificial (IA) já entrou na escola. Entrou pelas mãos dos estudantes, curiosos e rápidos. Entrou pelos professores, pressionados por tempo e resultados. Entrou, inclusive, sem pedir licença.
E a escola? Em muitos casos, ainda finge que nada está acontecendo.
Enquanto isso, alunos usam IA para fazer redações em segundos. Professores corrigem atividades sem saber se aquele texto foi realmente produzido por quem assina. Trabalhos “perfeitos” aparecem, mas o processo de aprendizagem desaparece. O que está em jogo aqui não é tecnologia – é sentido.
A IA não é o problema. O problema é o vazio pedagógico que ela escancara.
Se antes já havia estudantes copiando da internet, agora temos algo mais sofisticado: uma ferramenta que pensa, escreve, organiza ideias e até simula criatividade. E isso muda tudo. Porque obriga a escola a fazer uma pergunta incômoda: o que, de fato, estamos avaliando?
Se a resposta de uma atividade pode ser gerada em segundos por uma máquina, talvez o problema não esteja no aluno que usa a IA, mas na proposta pedagógica que se tornou previsível.
Mas não se trata de demonizar a tecnologia. Pelo contrário. A IA pode ser uma aliada poderosa, se houver intencionalidade.
Vamos ao chão da escola.
Em uma sala de aula da rede pública, um professor pode usar IA para criar diferentes versões de um mesmo texto, adaptadas a níveis distintos de leitura. Isso é inclusão na prática.
Em outra situação, estudantes podem comparar uma resposta gerada por IA com suas próprias ideias, identificando limites, erros e generalizações. Isso é desenvolvimento do pensamento crítico.
Em um projeto interdisciplinar, a IA pode ajudar a simular cenários históricos, ambientais ou sociais, permitindo que os alunos testem hipóteses e ampliem sua compreensão do mundo.

Agora, o outro lado.
Sem orientação, o estudante terceiriza o pensamento.
Sem mediação, o professor perde o controle do processo avaliativo.
Sem formação, a escola vira apenas consumidora de tecnologia e não produtora de conhecimento.
E aqui está um ponto fundamental para a realidade das escolas públicas: desigualdade.
Não basta dizer que a IA é o futuro se nem todos têm acesso a dispositivos, internet de qualidade ou formação adequada para utilizá-la. Existe o risco real de criarmos uma nova forma de exclusão: não mais entre quem sabe ler e quem não sabe, mas entre quem sabe usar criticamente a tecnologia e quem apenas a consome.
É nesse contexto que surge a regulamentação do governo federal, em 2026. Um passo importante, mas que, por si só, não resolve o problema.
O decreto aponta princípios como uso ético, transparência e proteção de dados. É necessário. Urgente. Mas a verdadeira transformação não acontece no papel, acontece na prática pedagógica.
Nenhuma lei substitui o olhar atento do professor.
Nenhuma diretriz substitui o diálogo em sala de aula.
Nenhum algoritmo substitui a experiência humana de aprender.
A regulamentação ajuda a criar limites e regras, mas quem dá sentido é a escola.
E talvez seja esse o maior desafio do nosso tempo: sair da postura de controle e entrar na postura de formação.
Não adianta proibir o uso de IA. Isso seria como tentar impedir o uso da internet há 20 anos. Também não adianta liberar geral, como se tudo fosse neutro. O caminho está no meio e ele exige coragem pedagógica.
Coragem para mudar a forma de avaliar.
Coragem para assumir que o modelo tradicional já não dá conta.
Coragem para ensinar algo que ainda estamos aprendendo.
A Inteligência Artificial não veio substituir o professor.
Mas pode, sim, expor práticas que já não fazem mais sentido.
No fim, a pergunta não é tecnológica. É profundamente humana: vamos usar a IA para empobrecer o pensamento ou para ampliá-lo?
A resposta não está nas máquinas.
Está nas escolhas que fazemos, todos os dias, dentro da sala de aula.
Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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