A escola também ensina quem somos

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Por professor Renato Munhoz

Durante décadas repetimos a mesma ideia: a escola existe para ensinar conteúdos. Português, matemática, ciências, história. Tudo isso continua sendo essencial — mas não é suficiente para explicar o que realmente acontece dentro de uma sala de aula.

Todos os dias, enquanto professores explicam matérias e alunos realizam atividades, algo muito maior está em curso: jovens estão aprendendo quem são, qual é o seu lugar no mundo e se suas vozes têm valor. A escola, queira ou não, é um dos principais espaços de construção da identidade humana.

E essa talvez seja uma das responsabilidades menos discutidas — e mais urgentes — da educação contemporânea.

O psicólogo Lev Vygotsky já defendia que o desenvolvimento humano acontece nas relações sociais. Não nos tornamos sujeitos isoladamente; tornamo-nos pessoas a partir dos encontros que vivemos. Isso significa que cada interação escolar — um incentivo, uma correção, uma escuta ou um silêncio — participa diretamente da formação emocional e social dos estudantes.

A pergunta que precisamos fazer é simples e desconfortável:

O que nossos alunos aprendem sobre si mesmos dentro da escola?

Aprendem que podem participar ou que devem apenas obedecer?

Aprendem que errar faz parte do processo ou que o erro define quem são?

Aprendem que sua história importa ou que precisam se encaixar em um modelo único?

O educador Paulo Freire alertava que não existe educação neutra. Toda prática educativa comunica valores, mesmo quando não percebemos. Uma escola baseada apenas na transmissão de conteúdos pode formar estudantes tecnicamente preparados, mas emocionalmente silenciados.

Fala-se muito em inovação educacional, tecnologia e metodologias ativas. Fala-se pouco sobre algo mais básico: os estudantes estão sendo escutados?
Fotos: Freepik

E o silêncio pedagógico cobra um preço alto.

Vivemos um tempo marcado por ansiedade juvenil, dificuldades de convivência e sensação crescente de não pertencimento. O sociólogo Zygmunt Bauman descreveu nossa sociedade como líquida, instável e acelerada. Nesse cenário, a escola poderia ser um espaço de referência e construção de vínculos — mas, muitas vezes, reproduz a mesma pressa e superficialidade do mundo exterior.

Fala-se muito em inovação educacional, tecnologia e metodologias ativas. Fala-se pouco sobre algo mais básico: os estudantes estão sendo escutados?

Educação socioemocional não é moda pedagógica nem atividade ocasional em semanas temáticas. Trata-se de reconhecer que aprender envolve emoções, relações e identidade. Um aluno que se sente reconhecido aprende mais. Um estudante que percebe pertencimento participa mais. Um jovem que encontra espaço de fala desenvolve autonomia e responsabilidade.

Criar ambientes de escuta não significa abrir mão da autoridade docente. Significa transformar autoridade em referência, não em imposição. Rodas de conversa, assembleias de classe, projetos colaborativos e práticas restaurativas não são interrupções do currículo — são parte essencial dele.

A filósofa Hannah Arendt dizia que educar é apresentar o mundo aos mais novos sem impedir que eles também o transformem. Talvez o maior erro educacional seja esperar participação crítica de estudantes que passaram anos sendo apenas espectadores.

A escola não forma identidade apenas quando fala sobre valores. Ela forma identidade na maneira como organiza o cotidiano, distribui a palavra e reconhece — ou ignora — seus alunos.

Por isso, a discussão sobre educação socioemocional não deveria começar perguntando o que ensinar, mas como convivemos dentro da escola.

Porque, no fim das contas, cada estudante sai da escola levando muito mais do que um boletim. Leva uma narrativa sobre si mesmo: se é capaz, se pertence, se pode sonhar, se tem voz.

E talvez o verdadeiro indicador de qualidade educacional não seja apenas o desempenho em avaliações, mas uma pergunta mais profunda:

Nossas escolas estão formando alunos que sabem conteúdos ou pessoas que sabem quem são?

Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.

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