A mutilação de uma paineira, um marco do desligamento do ser humano

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Por Daniel Steidle

“Veio o povo das mercadorias, os napë, o homem-branco… e com ele a destruição, a religião, a roupa, a doença e a sua fome incansável pelo ouro”. A tragédia dos Yanomamis é a tragédia também dessa paineira à beira da rodovia PR 170, entre Rolândia e o Distrito de São Martinho, no topo da antiga Fazenda Santa Cruz, que está virando cidade. 

Sim, as cidades precisam crescer, mas precisa ser na base da estupidez, da violência? A paineira, todos os anos, presenteava os passantes com lindas flores. Assim como no campo de girassóis, na outra entrada de Rolândia, as pessoas paravam, tiravam fotos. 

A destruição da paineira  à beira da rodovia PR 170, entre Rolândia e o Distrito de São Martinho é uma demonstração da insensatez do ser humano e provoca uma reflexão sobre a nossa relação com a natureza
“Obrigado, querida paineira da Santa Cruz, por ter nos presenteado tantas vezes com suas flores” ( 02 de março de 2022- arquivo pessoal)

Agora? Há cerca de 10 dias, em nome da expansão imobiliária, alguma máquina quebrou os galhos e provocou profundos machucados na paineira… Não houve uma poda, simplesmente destruíram a árvore. 

Quem é o culpado pela mutilação da paineira?

É assustador! Passo lá todos os dias indo para a fazenda Bimini e não consigo ignorar, sem pensar que, de novo, como pode acontecer isso? Eu parei lá, fiz a minha foto e chorei!… Chorei porque a paineira não consegue derramar lágrimas, nem gritar pela dor da mutilação. 

A quem culpar? O maquinista? Uma empresa? O prefeito? O progresso? Não dá para entender, principalmente, o silêncio das pessoas diante desse crime ambiental. Muita gente deve estar com dor no coração.Mas, por que chegamos a este ponto de total insensibilidade?

Sou parte do “povo das mercadorias”… ainda não aprendi a língua do povo dessa terra que se comunicava com as árvores, os animais e as estrelas. Meu desabafo aqui, cheio de emoções, é inútil. 

Diante dessa tragédia da paineira, é preciso refletir sobre como vamos continuar? Como melhorar a nossa relação não só com o meio ambiente, mas também com as pessoas que por uma série de motivos estão se agredindo cada dia mais?  A indiferença também acontece no ambiente humano, ninguém mais conversa, temos congestionamentos no trânsito, ondas de calor. Um mal-estar geral! 

Agrofloresta

A paineira continua em pé, mutilada como marco de uma época de TOTAL DESLIGAMENTO. Como se religar novamente? A Agrofloresta seria uma “escola de religação”?

Estamos trabalhando em um projeto que vai mostrar que é possível estabelecer uma relação saudável entre homem e natureza. Em março, deve ter início a gravação de um curta-metragem e de uma websérie sobre as questões que envolvem água, escola e cidades a partir  do olhar AGROFLORESTAL.

Ou seja, o céu cairá… mas há esperança como mostra o final do filme “A queda do céu” (Documentário de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha que explora a luta dos Yanomami contra a destruição ambiental a partir da figura do xamã Davi Kopenawa): nasce uma criança, uma menina! Quem sabe o vento tenha levado alguma semente da paineira para um lugar seguro?

foto capa: o artista plástico Edson Massuci revoltado com a mutilação feita na paineira da antiga Fazenda Santa Cruz (arquivo pessoal)

Daniel Steidle

Educador ambiental e neto dos fundadores da Fazenda Bimini, os imigrantes alemães Hans e Hildegard Kirchheim, que, em 1936, desbravaram a região em Rolândia, no norte do Paraná. foto perfil: Reinaldo Gabriel

Instagram: @fazendabimini

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