Por Telma Elorza
Mesmo com pouco orçamento, improviso e zero planejamento de longo prazo, o Carnaval de Londrina 2026 atraiu multidão ao Zerão e outros pontos da cidade e escancarou uma verdade incômoda: a administração municipal não investe mais porque não quer.
O que se viu este ano foi tudo aquilo que a gestão pública costuma entregar quando não trata a cultura como prioridade: apressado, programado às pressas, com orçamento limitado e cara de “vamos fazer porque o povo tá cobrando”. Ainda assim, foi um sucesso de público. O Zerão ficou lotado de famílias e foliões anônimos, blocos animaram a cidade e milhares de pessoas provaram que é só fazer que a população vai. Londrina quer Carnaval, sim.
O que não quer, me parece, é o potencial econômico, turístico e simbólico dessa festa.
Carnaval de 2026 foi montado em cima da hora, sem nenhum (ou quase nenhum) tipo de patrocínio. Também, o edital foi liberado praticamente em cima da hora. Faltou o básico (aliás, como tudo nessa administração): planejamento real, antecedência e visão estratégica. Se tivesse sido planejado desde o início do ano passado, grandes marcas poderiam ter aderido. Mas nenhuma empresa responsável faz “extra” num orçamento de marketing que é definido anualmente.
Ainda assim, o público apareceu. E apareceu em peso. Poderia ser maior ainda. Claro, basta lembrar que anos anteriores o bloco Bafo Quente arrastou mais de 50 mil pessoas sozinho!
Londrina insiste em tratar o Carnaval como um evento “menor”, quase como se fizesse um favor à população. E o resultado é sempre o mesmo: improviso disfarçado de simplicidade e sucesso tratado como surpresa. Mas surpresa mesmo seria se pouca gente tivesse respondido à festa.

Carnaval não é gasto à toa. É investimento
Enquanto Londrina faz conta de moedas, outras cidades contam bilhões em suas contas. Um exemplo gigante vem de São Paulo. Dados da Fecormércio SP, com base no IBGE, apotam que o Carnaval de 2026 deve movimentar R$18,6 bilhões na economia paulista, um crescimento de 10% em relação ao ano passado.
Os setores mais impactados por essa movimentação são transporte, hospedagem e consumo. Os hotéis estão cheios, os bares lotados, restaurantes faturando alto e milhares de empregos temporários gerados, sem falar no comércio. Aliás, quantas moscas entraram no comércio de Londrina, que manteve as portas abertas em plena terça-feira de Carnaval?
E nem precisa ir longe, Cornélio Procópio, aqui pertinho, prova que Carnaval vale a pena, economicamente falando. A cidade, bem menor que Londrina, transformou o Carnaval em um evento regional forte, que atrai turistas, movimenta a cidade e sua economia. Não digo nada se muitos dos londrinenses estiveram brincando por lá, já que não havia nem certeza se Londrina teria alguma coisa. Dinheiro de toda região Norte foi derramado em Cornélio. Mas lá houve planejamento, valorização e entendimento que cultura também é negócio. Cornélio não improvisou. Agendou, divulgou, investiu e colheu resultados.
Enfim, o Carnaval de Londrina foi um sucesso APESAR do que fez a gestão, não por causa dela. Foi a prova que existe demanda reprimida, público e potencial econômico sendo disperdiçado ano após ano.
E a pergunta que fica não é se Londrina consegue fazer um grande Carnaval, pois já provou que consegue, mesmo com migalhas. A pergunta é: por que a administração pública insiste em não querer promover a cidade como merece? Enquanto a gestão tratar o Carnaval como um evento secundário, continuará perdendo dinheiro, visibilidade e identidade.
Porque o Carnaval passa, mas a falta de visão continua.
Foto principal: Carnaval 2026 em Cornélio/Divulgação/Prefeitura Municipal de Cornélio Procópio
Telma Elorza
É jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD.
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