Por Wilson Moreira (*)
Não podemos negar que há um problema de falta de mão de obra no Brasil. Acontece que esse problema está sendo associado, pelos empresários e parte dos políticos, diretamente aos programas sócias do governo, essencialmente ao Bolsa Família. Culpa-se um programa fundamental de transferência de renda e combate à miséria por comprometer o desenvolvimento econômico do país e prejudicar as empresas.
Na realidade há outros fatores que ocasionam o desinteresse das pessoas em integrar o mercado formal de trabalhadores que não o Bolsa Família: sejam eles a queda do desemprego; o ideal de empreendedor que tem sido disseminado no seio social; a emergência das plataformas de jogos e dos profissionais das redes sociais e os baixos salários pagos pelas empresas.
Bolsa Família não é responsável por:
Queda do desemprego
Com a situação de praticamente pleno emprego no Brasil os trabalhadores podem “escolher” postos de trabalho com melhores salários e mais benefícios, isso faz com que haja um rearranjo no mercado e postos menos atrativos ficam mais difíceis de preencher.
Crescimento do empreendedorismo e uberização do trabalho
O ideal de empreendedorismo preconizado como liberdade e possiblidade de sucesso na vida cria novos empreendedores cheios de sonhos todos os dias, deixando seus empregos formais. Haja vista a crescente opção das pessoas em trabalhar com aplicativos de transportes e de entregas.
Profissionais da internet ou influenciadores
Principalmente os jovens (mas não apenas eles) volta-se a trabalhar na internet com canais próprios como influenciadores, pois acham que é mais rentável do que trabalhos convencionais com carteira assinada. Há inclusive muitos jovens profissionais de jogos on-line e dedicam-se exclusivamente a essas atividades.
Salários desestimulantes
Para as pessoas que tendem a entrar no mercado formal de trabalho os salários não são atrativos. Isso por todos os fatores anteriores, muito mais do que por causa do Bolsa Família.

A sociedade moderna traz relações econômicas complexas para o mundo do trabalho. A pontar os benefícios sociais do governo federal como o principal e único vilão para a falta de mão de obra é fazer uma análise superficial e preconceituosa. O Bolsa Família tem uma importância capital para a economia brasileira, fundamentalmente nas pequenas cidades pelo Brasil afora. Em muitas cidades, o comércio, as pequenas indústrias e a agricultura familiar são impulsionados pelo Bolsa Família. Outrossim precisamos lembrar que no período entre janeiro e outubro de 2025 mais de 2 milhões de pessoas saíram do Bolsa Família. O Bolsa Família fortalece a economia do país.
Às entidades empresariais resta estudar o novo mundo do trabalho e sua complexidade a fim de desenvolver ações para absorver os trabalhadores e suprir a mão de obra necessária. Investir na formação profissional com parcerias com universidades, poder público e sociedade pode ser um caminho promissor. A mão de obra existe, apenas está deslocada, empenhada em atividades mais atrativas, mesmo que momentâneas.
A escassez de mão de obra é um problema deveras complexo, no entanto o Bolsa Família certamente é o menor deles. O uso político do discurso contra os programas sociais sem argumentos racionais não serve a um debate sério em busca de soluções razoáveis ao desenvolvimento econômico nacional. É certo que os programas sociais devem ser fiscalizados e controlados com rigor e firmeza, mas as discussões do mundo do trabalho em pouco ou nada passam pelo Bolsa Família.
Foto principal: Divulgação/MDS
(*) Wilson Moreira é policial penal, cientista social, poeta e vice-presidente do diretório municipal do PCdoB em Londrina.
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