Exótica coisa nenhuma!

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Vou começar o texto com uma pergunta: Quando se fala em mulher bonita, qual é a figura de que lhe vem à  memória? Pensou? A imagem feminina em suas lembranças é, inicialmente, de uma mulher negra? Muito provável que não. E ao mudar o questionamento. Se eu lhe indagar a respeito de uma mulher atraente, sensual, que mexe com seus desejos. De quem é a sua primeira lembrança? Aqui, a resposta estará propensa para as mulheres negras.

Percebe a diferença? Quando se trata de beleza, não somos elencadas como padrão de beleza feminina, isso se dá em razão de uma construção social que durante muitos anos colaborou para que a mulher negra fosse deixada de lado quanto à sua beleza estética. E deixada mesmo, pelas peças publicitárias, pelo protagonismo nas novelas, pela indústria de brinquedos, pelos homens.

Vou dar exemplos de experiências minhas para ilustrar tais situações. Certa vez, descíamos da escola em três amigas e no percurso havia três meninos. Ao perceber que um deles teria que “ficar” com a única negra do grupo, ouvi um “para mim, só sobram as coisas esquisitas”. Em outras oportunidades, fui presenteada com o famoso e sensacional “você não tem perfil”. Depois que passamos a estudar sobre o racismo e suas vertentes, começamos a identificar como é o seu agir sorrateiro entre nós.

“Agora eu não posso ter mais opinião e preferência!”. Pode ter gente lendo e pensando, e a minha resposta é: Sim, você pode e deve, mas antes de sair reproduzindo falas e conceitos que todos usam, procure pensar se isso irá machucar ou ofender o outro. Pare de achar que é só uma brincadeira, que o mundo está chato, que tudo é racismo. As pessoas evoluem, os conceitos mudam, mas o racismo, este, continua ditando até que as mulheres negras não são bonitas. Lembre-se da perguntinha que eu fiz no início do texto!.

Precisamos pensar a respeito. Necessitamos sair da caixinha do senso comum e falácias e pensarmos na realidade do próximo.  Falar a respeito do ser mulher negra é uma forma de esclarecer dados para aqueles que não sabem sobre nosso caminhar diário. Além disso, é uma maneira de enaltecer tanta coisa maravilhosa que provém das mulheres negras!

São inúmeras e uma delas é nossa beleza! Mulher negra, você é linda! Acredite nisso, sempre! O padrão de beleza diz o contrário, né? Mas é preciso não acreditar nisso. Força! Eu sei que é difícil, pois crescemos, muitas vezes, sem um norte para que nossos faróis buscassem orientação. Somos muitas! Somos reluzir! Somos destaque! Merecemos elogios sem máculas e tons pejorativos.

No início desta semana, um aluno me disse que era uma mulher bonita. Agradeci e confesso que o elogio foi inesperado. Daí, automaticamente, um gesto tão simples – e cheio de significados -, fez-me lembrar das inúmeras vezes que ouvi que minha beleza era exótica. “Que beleza exótica”, “Acho as negras exóticas, têm algo de mistério”, “ você tem uma beleza exótica, diferente”. Pai amado!

Ser uma mulher negra não tem nada de exótico. Vivemos em um país em que a maioria das pessoas são negras, logo nossa beleza deveria ser tratada como algo comum aos olhos. Vou confessar: toda vez que ouvia esse comentário, corroía-me por dentro. Achava desnecessário, ofensivo e também debochado. Sério que com várias possibilidades de adjetivos para abordar a beleza da mulher negra, tais como esplêndida, maravilhosa, fascinante, estonteante, entre outros, você vai resumir nossa beleza ao uso do termo – péssimo – exótica? Vou mais além: ou você diz isso por que se espanta que mulheres negras sejam bonitas?

Uma olhada rápida no Pequeno Dicionário Houaiss (2015), podemos conferir alguns significados da palavra exótica. […] “O mesmo que estrangeira, esdrúxula, importada, inusitada. Que não é comum”.  E antes que você venha dizer que isso é exagero, que isso não tem nada a ver, que problematizamos tudo. Vou afirmar bem claramente: Exótica coisa nenhuma!

Elogie as mulheres negras que convivem com você! Destaque os pontos positivos dela! Diga o quanto ela é maravilhosa! O mundo já nos diz coisas negativas demais, comece a fazer diferente!

Quem é Viviane Alexandrino

Sou a Viviane, tenho 36 anos e atuo como professora de Língua Portuguesa em colégios da cidade de Londrina. Além da formação em Letras Português, pela UEL, e mestranda em Estudos Literários pela referida instituição, sou formada também em Jornalismo, profissão essa que exerci durante 10 anos antes de me apaixonar pela educação.

Foto: Misha Voguel no Pexels

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