Por Ana Paula Barcellos
Faz tempo que eu não sei o que é comprar roupa, principalmente blusa, que realmente caia bem em mim e me deixe satisfeita. Repararam que tem rolado pouquíssima “experiência de cabide” por aqui ultimamente? Pois é!
Estou em processo de emagrecimento. Ano passado comecei acompanhamento com nutricionista e, finalmente, voltei pra academia. Meu corpo é pequeno, curto — qualquer peso extra desregula tudo e faz parecer que vai estourar. Ainda preciso perder uns 11 quilos. E quem já passou por isso sabe: antes de perder quilos na balança, a gente perde medidas. Porque troca gordura por massa magra, o corpo muda de forma, e eu não entrei nessa de métodos radicais. Canetas? Só em último caso, já falei. Mas isso, claro, tem um preço, e o meu foi cair no limbo entre os tamanhos M e G.
Diferente das outras duas vezes que emagreci, dessa vez está sendo uma jornada bem lenta. Logo no comecinho, ouvi o clássico conselho: “Nem compra roupa nova agora, espera perder tudo que tem pra perder!”. Tentei seguir. Mas é angustiante se olhar no espelho com peças que já não servem mais, que não dizem nada sobre você. Acabei comprando algumas blusas em lojas de departamento, sempre aceitando um resultado “mais ou menos” no espelho porque a modelagem delas é genérica, pensada pra corpos magros — bem magros. Some a isso a qualidade duvidosa de muita peça e a rotina de se vestir vira uma sinfonia de suspiros.

Achei que a culpa também fosse minha, por ficar presa nessas lojas (medo de gastar mais e perder rápido as peças). Migrei pra lojas melhores do shopping. Resultado? Sim, tecidos melhores, me senti um pouco mais digna. Mas não resolveu o principal: a modelagem freestyle brasileira não tem lógica nenhuma. Se você tem busto maior, quadril mais largo e coxas grossas, adivinha? Os braços também acompanham essa proporção. Só que a galera da modelagem não entende isso. A maioria das blusas fica ótima no resto do corpo e aperta nos braços. Terror.
Aí comecei a saga das lojas on-line com modelagens de blusas “amplas”, manga morcego, fluidas, “orgânicas” (como elas adoram falar), o puro suco da confecção “autoral”. Fita métrica na mão, guias de medidas abertos, comprei pelo menos uma peça de cada loja que selecionei pra testar. Janeiro inteiro nessa missão. Chegaram as caixas, pacotes, e… surpresa: as medidas de várias não batiam com o guia. Blusas super amplas, quase balão, e mangas franzinas, apertadas. As calças até compensaram, mas as blusas continuaram sendo meu pesadelo. De novo, cheia de roupa nova e infeliz.

H&M do Brasil e suas blusas
Um dia, sem pensar muito, num ato de rebeldia e puro desespero, cliquei num anúncio da H&M Brasil no Instagram. Blusas lindas nas fotos! Eu já conhecia a marca das coleções gringas, mas nunca compro de fora (salvo raríssimas exceções) e ainda não tinha comprado do site brasileiro. “Isso vai servir nunca em mim, vou acabar doando, a história de sempre…”. Mesmo assim, comprei. Me senti burra? Um pouco. Mas era desespero mesmo.
As blusas chegaram quinta-feira e…ficaram perfeitas. Inclusive as de modelagem mais justa! Mangas certinhas, proporcionais ao resto do corpo. Fiquei aliviada e brava. O alívio de me sentir bem vestida, de olhar no espelho e pensar “é isso”. Pode ser porque a H&M ainda chegou bem “gringa” na proposta de modelagem? Pode, e isso só escancara o problema: a roupa de Barbie vendida por aí não tem nada a ver com o corpo da brasileira média. O tamanho G é o primeiro que esgota nas araras (podem pesquisar), e mesmo assim não tem tanta opção bonita em G e GG quanto em P e M. O hype da magreza extrema voltou com força, e eu não vejo esse debate acontecendo de verdade, nem vontade real de mudar coisa alguma.

Quero viver de peças nacionais, quero amar o nacional — mas, no meu corpo atual, não está rolando. Estão cagando pra gente como eu, brasileira média, com curvas. E apesar de todas as minhas ressalvas (preço, sustentabilidade, fast fashion, etc.), a H&M acabou de ganhar meu corpo por um bom tempo.
No pacote veio escrito: “Com amor, H&M”. Puro marketing, óbvio. Mas minha autoestima cedeu na hora e meu corpo disse sim! Recomendo.
Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate.
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