Por Ana Paula Barcellos
O que eu mais quero ver é a moda nacional realmente dar as mãos para suas raízes!
Estava lendo a seção Ilustrada da Folha de São Paulo e encontrei uma matéria que veio muito de encontro com as coisas sobre as quais quero falar. Conta que, em 2015, o estilista alagoano Antonio Castro visitava o Museu A Casa, no centro de São Paulo, quando se deparou com uma frase de Leon Tolstói escrita na parede: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Aquela máxima, direta e reta, bateu como um estalo. Naquele instante nasceu a Foz, uma das marcas mais potentes da moda brasileira contemporânea, que hoje inspira uma onda crescente de criadores que decidiram olhar para trás — para as suas raízes — exatamente para conseguir olhar para a frente.


Não é nostalgia. É estratégia de sobrevivência criativa.
Enquanto boa parte do mundo da moda ainda se ajoelha diante do calendário europeu — Paris, Milão, Londres —, uma geração de estilistas brasileiros resolveu fazer o caminho inverso. Em vez de importar tendências, exportam identidade. Usam palha de carnaúba, renda de bilro, fios de buriti, tingimentos de urucum e técnicas que atravessaram séculos nas mãos de mulheres indígenas, quilombolas e ribeirinhas. O resultado são peças que carregam a memória de quem nunca teve voz nos editoriais de moda.
A Foz de Antonio Castro, a Handred de André Namitala, a Angela Brito, a Nuz Demi, a Meninos Rei, a Silvério, Projeto Sankofa… Todos bebem da mesma fonte: a convicção de que o Brasil não precisa olhar pra fora para ser moderno. Basta ser profundamente brasileiro e ir além das estampas de arara e de abacaxi.


E aqui mora o paradoxo que mais me fascina: quanto mais local, mais universal.
Uma bolsa de palha trançada pelas artesãs do Jalapão pode atravessar oceanos e parar na vitrine da Dover Street Market em Londres. Um vestido tingido com casca de baru por mãos quilombolas do Vale do Jequitinhonha pode desfilar em Paris e ser aplaudido de pé.
Moda europeia com esgotamento criativo
A moda europeia, com todo o respeito que merece, vive um momento de esgotamento criativo. Repete silhuetas, recicla logos, inflaciona preços e, principalmente, repete narrativas. Já a moda que nasce nas periferias, nas aldeias, nos terreiros e nos mangues brasileiros traz algo que o velho mundo talvez nem conheça: a urgência de existir, de ser visto, de contar uma história que não foi escrita por outros.
Isso não significa romantizar a pobreza ou transformar técnica ancestral em mero adereço exótico. Significa, isso sim, estabelecer relações justas de trabalho, remunerar dignamente quem produz, dar nome e rosto às mãos que tecem, trançam e costuram. Moda autoral brasileira só será revolucionária de verdade quando deixar de ser “inspirada” em culturas tradicionais e passar a ser co-criada com elas.



Marcas internacionais como Dior, Jacquemus e Loewe flertam abertamente com o artesanato brasileiro — às vezes com mais sensibilidade, às vezes com o velho olhar colonial disfarçado de homenagem. Que sirva de alerta: copiar o nosso fazer é fácil. Entender o porquê dele é outra história.
A grande virada acontecerá quando o centro do mundo da moda deixar de ser Paris e passar a ser, por exemplo, o sertão nordestino, o Pantanal sul-mato-grossense ou o Xingu. Quando o calendário que realmente importar for o das cheias do rio, o da colheita do capim-dourado, o da lua que manda tingir o algodão.
Porque moda universal (assim como outras formas de arte, como a literatura), como disse o velho russo, começa mesmo é pintando a aldeia. Ou, no nosso caso, trançando-a, tingindo-a, bordando-a com linha de pesca e cantando-a em ponto de renda.



A Europa que siga o seu. Aqui a gente já começou.
E começou do jeito que sabe: de baixo pra cima, da margem pro centro, da roça pra passarela.
Porque o Brasil, quando decide ser ele mesmo, ele simplesmente é.
Foto principal: Divulgação/Projeto Sankofa
Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate. Me siga no Instagram @experienciasdecabide e @yopaulab
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