Por Vivi Agudo
Qual é, afinal, a diferença entre joia, semijoia e bijuteria? Essa pergunta volta sempre a aparecer. E ela revela algo maior do que parece: o peso das palavras.
Ao meu ver, joia é aquilo feito com metais nobres — ouro, prata, platina, paládio, ródio — e que pode receber gemas naturais. O material nobre é estrutural. Não é revestimento. É ele que sustenta valor, durabilidade e possibilidade de restauro. Guias internacionais de comércio distinguem claramente peças produzidas em metais preciosos de acessórios feitos com metais comuns ou apenas banhados. Revestimento não altera natureza.

Bijuteria é o que não é feito de metal nobre. Pode ter acabamento de excelência, design autoral, identidade forte e matéria-prima de qualidade. E isso não é menor. Existe, inclusive, uma tradição consolidada na história da moda conhecida como costume jewelry.
Nos anos 1940 e 1950, com metais nobres restritos e economicamente inacessíveis para muitos, a criatividade ganhou protagonismo. Foi nesse cenário que Coco Chanel ajudou a transformar a bijuteria em linguagem estética sofisticada. Madame Chanel misturava pérolas verdadeiras com pérolas falsas intencionalmente, defendendo que estilo não deveria depender apenas do valor do material. Ela não buscava imitar joias; ela criava expressão.

Nada disso é um problema. Muito pelo contrário. Existem marcas maravilhosas produzindo peças lindíssimas, com design autoral, identidade marcante, acabamento impecável e excelência técnica. Está tudo certo com isso.

Semi?
O ponto que me faz refletir é o termo “semijoia”. Ele não é técnico; é uma construção de mercado. Assar um bolo numa forma de pudim não transforma bolo em pudim. Continua sendo bolo. Da mesma maneira, aplicar banho de ouro sobre metal comum não transforma a peça em joia.
O mesmo vale para as pedras. A classificação “semipreciosa” vem sendo evitada por especialistas em gemologia, justamente por sugerir que certas gemas seriam “menos preciosas” por definição — o que não corresponde à realidade geológica nem ao valor individual de cada uma.
Como dizia Hans Stern, fundador da H. Stern, não existe mulher semigrávida nem pessoa semionesta. Ou é, ou não é.
Joia é adorno — aquilo que enobrece e pode atravessar o tempo.
Bijuteria é acessório — aquilo que complementa e dialoga com a moda.
As duas têm espaço. As duas podem ser bonitas. Mas são categorias diferentes.
Quando essência e palavra coincidem, joia é verdade.
Vivi Agudo


Mestre em Design (UFSC), conduz a Angatu Joias, unindo arte, design e propósito em criações de joias autorais que expressam sofisticação, sensibilidade e identidade. Escorpiana, apaixonada pelas cores e pelos ritmos da América Latina, vive cercada de pedras, símbolos e significados — sempre observada por Obá, sua gata preta de olhar enigmático. Siga-me nas redes sociais: @vivi.agudo e @angatu.joias Site: Angatu Joias
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