O corpo como casa da memória

angatu

Por Marcelo Minka

Há joias que não ficam apenas sobre o corpo. Ficam nele. Um anel usado durante anos, um pingente herdado, um brinco ligado a uma fase decisiva da vida: essas peças deixam de ser simples adornos e passam a ocupar outro lugar. Já não servem apenas para compor uma imagem. Tornam-se parte de uma história vivida, quase como se a pele aprendesse a lembrar através delas. A joia, então, não enfeita só o corpo. Ela ajuda o corpo a guardar o tempo.

É aqui que a filosofia de Gilles Deleuze ilumina a joalheria de um modo raro. Para ele, a vida não é feita de identidades prontas e imóveis, mas de variações, afetos, repetições e transformações. Nós não somos algo fixo que depois recebe experiências; somos feitos por aquilo que nos atravessa. O corpo, nessa leitura, não é vitrine nem suporte passivo. É campo de forças, lugar onde o vivido deixa marcas e continua agindo.

Se isso é verdade, uma joia importante não funciona como um símbolo parado. Ela participa do que acontece. A aliança tocada distraidamente todos os dias não é apenas “a mesma” aliança. Ela atravessa rotinas, silêncios, reconciliações, perdas, alegrias. E cada repetição modifica seu sentido. Deleuze insistia justamente nisso: repetir não é reproduzir o idêntico; é produzir diferença. Talvez seja por isso que certas peças ganhem espessura com o tempo. Não porque mudem de forma, mas porque mudam de intensidade.

Essa é uma ideia bonita porque nos afasta de uma noção pobre de memória. Memória não é apenas arquivo. Não é gaveta interna onde o passado fica guardado intacto. A memória volta, mas volta transformada. Uma joia comprada numa viagem não conserva somente a lembrança de um lugar: ela reativa uma atmosfera, uma versão de nós mesmos, uma luz específica daquele dia. O passado não reaparece como cópia. Reaparece como presença renovada.

As joias mais importantes de uma vida  - não importa seu valor - não funciona como símbolo parado. Elas estão presentes no dia a dia, em contato constante com o corpo. E permanecem
Fotos: Analua Studio/Angatu Joias

O corpo é a casa viva

Por isso o corpo pode ser pensado como casa da memória. Não uma casa imóvel, fechada sobre si, mas uma casa viva, onde as experiências continuam circulando. A joia entra nesse circuito porque permanece em contato com a pele, com o gesto, com a repetição dos dias. Ela ganha marcas, perde o brilho inicial, absorve uso, temperatura, convivência. Em vez de permanecer intacta, entra em relação. E talvez seja exatamente aí que ela se torna mais valiosa.

Isso ajuda a entender por que as joias mais importantes de uma vida nem sempre são as mais caras. O valor econômico mede metal, pedra, raridade, acabamento. Mas há um outro valor que escapa a qualquer tabela: o valor daquilo que afetou e foi afetado. Numa chave deleuziana, a grandeza de uma coisa não está em sua fixidez, mas em sua potência de entrar numa vida e continuar agindo nela. Uma joia viva é justamente isso: matéria que reteve afeto.

No fim, talvez a distinção mais importante não seja entre joia simples e joia luxuosa, mas entre joia decorativa e joia habitada. A decorativa pode ser bela. A habitada é outra coisa: ela permanece. Não apenas porque dura, mas porque continua acontecendo dentro de quem a usa. E talvez seja essa a forma mais profunda de beleza que uma peça pode alcançar: não a de brilhar sobre o corpo, mas a de participar discretamente daquilo que o corpo se torna.

Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), dá forma à linguagem estética da Angatu Joias, unindo arte, forma e símbolo em criações que revelam a poética entre design e significado. Artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka e  @angatu.joias Site: Angatu Joias

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