Por Robson Moretão
Eu sou Robson Moretão e hoje eu não vim aqui falar de gráficos incríveis, lançamentos aguardados ou joguinhos bonitos da nova geração.
Este texto faz parte da coluna “ALÉM DOS CONTROLES”, e hoje esse artigo não é sobre entretenimento. É sobre formação. É sobre caráter. É sobre o que os games fizeram com a nossa mente — e talvez ainda estejam fazendo com a próxima geração.
A pergunta é simples, mas desconfortável: estamos criando uma geração vencedora… ou uma geração que desaprendeu a perder?
Se você já soprou cartucho, virou madrugada tentando passar de fase ou perdeu horas porque esqueceu de salvar, sabe que videogame nunca foi só diversão. Era frustração. Era repetição. Era insistência.
E talvez — só talvez — tenha sido um treinamento silencioso de caráter para a vida real.
Zerar um jogo nos anos 90 não era apenas entretenimento. Era resistência psicológica.
Quando você travava em uma fase de Super Mario Bros., não existia guia detalhado na palma da mão. Se perdesse em The Legend of Zelda: Ocarina of Time, ninguém aparecia com setas brilhantes indicando cada passo. Era tentativa, erro, observação de padrão e repetição.

E repetição dói.
Morrer 30 vezes para o mesmo chefe não era “jogo mal balanceado”. Era parte do processo. Você entendia, cedo demais talvez, que perder não é injustiça — é aprendizado. Cada derrota trazia informação. Cada falha era dado estratégico.
Isso construiu algo raro hoje: autonomia mental.
Jogos antigos confiavam que o jogador iria descobrir. Eles não te guiavam o tempo inteiro. Eles te largavam no mundo e diziam, sem dizer: “se vira”. Explorar não era opção — era obrigação. A curiosidade virava método. O método virava estratégia.
Em RPGs clássicos, você anotava pistas em um caderno. Em jogos de plataforma, memorizava padrões de inimigos. Em shooters de LAN, aprendia mapas na prática. Nada vinha mastigado.
Falando em LAN… quem viveu uma tarde inteira num lan house jogando Counter-Strike 1.6 sabe que o multiplayer era diferente. Não tinha anonimato confortável. Seu adversário estava do seu lado. Se você perdia, aguentava a zoação ali, cara a cara. Isso ensinava limite. Competição saudável. Respeito.
Hoje, muitos ambientes digitais permitem agressividade sem consequência. Antes, a consequência era imediata: olhar nos olhos.
Outro detalhe que moldou caráter foi o save manual. Esqueceu de salvar? Perdeu horas. Simples assim. O progresso dependia de disciplina. Isso ensinava responsabilidade de uma forma quase cruel.
E as recompensas? Não existia passe de batalha. Não tinha skin comprada para parecer melhor. Zerou? Foi mérito. A vitória vinha do esforço acumulado. O cartão de crédito comprava o jogo, não a habilidade.
Essa geração aprendeu algo fundamental: esforço gera progresso.

Perder um jogo repetidamente nos torna melhores?
Mas aqui entra a pergunta difícil.
Será que isso nos tornou melhores… ou apenas diferentes?
A nova geração cresce com acesso instantâneo a informação. Tutoriais detalhados. Atualizações constantes. Jogos mais acessíveis. Isso pode reduzir frustração — mas também reduz exposição ao erro bruto, à tentativa sem garantia.
Nós fomos treinados na marra para lidar com frustração. Eles são treinados para otimização.
O problema não está na tecnologia. Está na forma como usamos ela.
Se você hoje é empresário, criador de conteúdo, líder de equipe ou pai/mãe, talvez carregue traços que nasceram segurando um controle.
- Persistência diante do erro.
- Capacidade de testar estratégias.
- Frieza sob pressão.
- Aceitação da derrota como parte do processo.
Isso não veio de um curso on-line. Veio de noites tentando passar de fase.
Na vida real, o “boss” pode ser uma crise financeira. Pode ser um projeto que fracassou. Pode ser um relacionamento que exige maturidade. A lógica é parecida: observar padrão, ajustar estratégia, tentar de novo.
Mas aqui está o ponto mais importante: nós estamos criando a próxima geração.
Se aprendemos paciência, frustração e empatia no sofá da sala, estamos ensinando isso aos nossos filhos? Ou estamos entregando a eles apenas atalhos?
Games continuam sendo uma ferramenta poderosa. Mas o aprendizado não está na dificuldade do jogo. Está na forma como o jogador encara o desafio.
Talvez o verdadeiro legado gamer não seja habilidade com controle. Seja mentalidade diante do erro.
Talvez nossa infância gamer não tenha sido apenas diversão. Talvez tenha sido um campo de treinamento silencioso para um futuro incerto.
A pergunta que fica não é se somos uma geração vencedora ou perdedora.
A pergunta é: estamos jogando a vida no modo fácil… ou ainda temos coragem de encarar o modo difícil quando ele aparece?
Porque no fim das contas, fora da tela também existem fases secretas, chefes inesperados e escolhas sem checkpoint.
E aí eu te pergunto: você está apertando “continuar”… ou esperando alguém liberar o tutorial da sua própria vida?
Robson Moretão

Um maluco por games desde sempre – há mais de 30 anos! Sou fissurado em histórias incríveis, desafios “impossíveis” e gráficos realistas. Aqui, na minha coluna, vou falar sobre o avanço desta indústria fantástica e seus desdobramentos.
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(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE


