Por Robson Moretão
Boas vindas, gamer. Esta é a coluna “Além dos Controles”, um espaço para explorar os mundos digitais que habitamos, não apenas para falar de gráficos ou placares, mas para decifrar como eles moldam quem somos, como nos relacionamos e como enxergamos a realidade. Este é o nosso primeiro encontro de 2026, e não poderíamos começar com um tema mais adequado: o futuro que já está batendo na nossa porta, ou melhor, carregando na tela de carregamento.
Os videogames completam sua trajetória mais radical: de nicho infantilizado a pilar central da cultura pop e, agora, a algo ainda mais profundo. Eles são o novo parque, o novo cinema, o novo shopping, o novo estádio. Com mais de 80% dos brasileiros jogando, segundo a Pesquisa Game Brasil 2025, não estamos mais falando de um “hobby”, mas de um habitat. Um espaço onde comportamento, tecnologia, sociedade e negócios colidem e se fundem. O que vem por aí, em 2026, não são apenas novos consoles ou franquias, mas novas formas de viver dentro — e a partir — dos jogos.
Quais tendências vão redefinir o game em 2026
O ano de 2026 não será sobre uma revolução única, mas sobre a consolidação de uma transformação silenciosa que já começou. O especialista Victor Hugo Cebratelli, do Team Solid, resume bem: os games deixaram de ser “válvula de escape” para virar “espaços de convivência”. E é nesse solo fértil que brotam as principais tendências.
A primeira tendência é a consagração dos jogos como praças públicas digitais. Fortnite e Roblox já são mais que games; são metrópoles virtuais. Em 2026, “vamos sair” significará, para muitos, entrar em um servidor. Shows, reuniões de trabalho, encontros casuais: o lobby é o novo ponto de encontro. A experiência social não é um extra do jogo; é o cerne dele. Isso redefine a própria noção de comunidade, deslocando-a do bairro para o hub virtual.

Essa audiência massiva e diversa alimenta a segunda tendência: narrativas plurais que espelham o mundo real. Com mulheres representando mais da metade dos jogadores, histórias monocromáticas não colam mais. Títulos como Life is Strange ou Tell Me Why pavimentaram o caminho, mas agora veremos a diversidade sair do nicho “alternativo” e chegar aos blockbusters. Personagens com profundidade psicológica, origens diversas e dilemas contemporâneos (saúde mental, identidade, justiça social) não são mais “agenda”, são exigência de um público que quer se ver na tela.
Por trás dessas histórias, a terceira tendência age nos bastidores: a IA generativa como co-roteirista e co-designer. Imagine um RPG onde cada diálogo com um NPC é único, gerado na hora com base nas suas ações anteriores. Ou um inimigo que não tem um pattern fixo, mas aprende com os seus movimentos e adapta sua estratégia. Com 90% dos estúdios já usando IA no desenvolvimento, segundo a Google Cloud, em 2026 começaremos a sentir isso na pele do jogador. A promessa é a de um mundo verdadeiramente reativo, onde cada campanha é pessoal e intransferível.
Para que essas experiências cheguem a todos, a quarta tendência é crucial: a nuvem como grande equalizadora. O streaming de jogos, com 5G mais robusto, vai furar a bolha do hardware caro. Plataformas como Xbox Cloud Gaming prometem que um celular mediano será portal para mundos de AAA. No Brasil, país do custo elevado de consoles, isso não é conveniência, é democratização. O acesso aos games deixa de ser barreira.
E o que atrai tantos olhos, atrai também quem nunca foi do meio. Aí surge a quinta tendência: a invasão (bem-vinda?) das marcas não-gamer. Da Louis Vuitton no League of Legends à Ferrari no Fortnite, empresas de todos os setores querem um pedaço desse universo. O risco do cringe é alto, mas, como aponta Cebratelli, quando a marca entende a cultura e agrega valor (um carro personalizável, uma skin icônica), a comunidade abraça. O jogo vira vitrine, e o player vira consumidor em um shopping experiencial.
Quem dita as regras desse novo mercado? A sexta tendência responde: os influenciadores e streamers como curadores e evangelistas. Eles não são mais apenas entretenimento; são o boca a boca digital. Um gameplay viral pode alavancar um jogo indie, e a crítica de um streamer respeitado tem mais peso que muitos sites especializados. Eles são a ponte humana entre a complexidade dos lançamentos e a decisão de compra do jogador.
Por fim, a sétima tendência nos tira da cadeira: a realidade estendida (XR) buscando seu lugar ao sol. O esperado Nintendo Switch 2 deve apostar forte em experiências híbridas. Headsets de VR mais leves e acessíveis, como o rumocado Quest 4, podem finalmente tornar a imersão total algo menos de nicho. A promessa é borrar as linhas: o jogo que começa na TV e continua pela sua sala, através do AR.
2026, o ano da mudança
O que emerge desse mosaico de tendências é um quadro claro: 2026 é o ano em que o videogame completa sua transição de produto para ecossistema. Ele não quer apenas seu tempo livre; quer ser parte integrante da sua vida social, da sua expressão cultural, da sua educação e até do seu consumo. A tecnologia (IA, nuvem, XR) é o facilitador, mas o motor é humano: a busca por conexão autêntica, por narrativas que ressoem e por espaços onde possamos ser, coletivamente, algo mais.
Para o gamer, isso significa um horizonte de possibilidades mais ricas e acessíveis. Para a sociedade, significa reconhecer que uma das linguagens culturais mais poderosas do século 21 está sendo escrita com um controle (ou uma tela touch) nas mãos. Ignorar esse fenômeno é deixar de entender uma geração inteira.
Diante de um futuro onde os mundos virtual e real se entrelaçam de forma tão íntima, você está pronto não apenas para jogar, mas para pensar criticamente sobre o que constrói, compra e vive dentro desses universos digitais?
Imagem principal: WHISK IA
Robson Moretão

Um maluco por games desde sempre – há mais de 30 anos! Sou fissurado em histórias incríveis, desafios “impossíveis” e gráficos realistas. Aqui, na minha coluna, vou falar sobre o avanço desta indústria fantástica e seus desdobramentos.
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