Para além de Pelican Town: a possível sequência de Stardew Valley

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Por Robson Moretão


Salve, salve, galera! É o Robson Moretao aqui, de volta na nossa coluna. Passando das 20 mil horas jogadas (e umas 20 anos nesse ramo) pra trazer aquele papo reto sobre o que realmente importa no nosso universo. Hoje a gente vai sair um pouco dos gráficos em 8K, dos lançamentos triplo A e dos debates inflamados sobre FPS. Vamos falar de raiz, de comunidade, e de uma fazenda digital que conquistou o mundo. O tema é Stardew Valley, mas a conversa vai muito além do pixel de uma plantação de batata.

Porque, vamos combinar, quem aqui nunca cedeu àquela promessa bucólica de deixar a correria corporativa de Zuzu City para trás? O jogo do Eric “ConcernedApe” Barone virou mais que um fenômeno indie; foi uma declaração de amor aos ritmos naturais, à paciência e às pequenas conexões. E agora, com a possibilidade sussurrada de um Stardew Valley 2, somos obrigados a fazer uma pausa na enxada e pensar: o que realmente queremos colher no futuro?

Imagens: IGN

A semente da dúvida: vale a pena deixar Pelican Town?

O texto de apoio trouxe à tona uma declaração preciosa do próprio Barone para a IGN. Ele vê com bons olhos a ideia de uma sequência, mas carrega nas costas o peso de oito anos de expectativa e carinho. O dilema dele é o dilema de qualquer criador que acerta em cheio na primeira tentativa: inovar sem trair.

Por um lado, a perspectiva de um mundo totalmente novo, com personagens inéditos e biomas diferentes, é o equivalente criativo a desbravar um novo mapa em um RPG. É aquela sensação gostosa de “day one” em um jogo de mundo aberto, onde tudo é mistério e possibilidade. Barone menciona que isso reacenderia a chama criativa de 2012, e qualquer um que já tenha trabalhado em um projeto por tanto tempo entende o valor dessa renovação de energias.

Por outro, temos Pelican Town. Não é apenas um cenário; é um lar digital para milhões. As histórias do Shane, da Penny, do solitário George… são parte do nosso repertório emocional gamer. Abandoná-las seria como um MMORPG favorito anunciar um servidor novo e apagar o antigo. A comunidade se forma em torno dessas memórias compartilhadas. O medo de Barone é legítimo.

Mas pensem comigo: a grandiosidade de Stardew Valley está justamente em sua completude. O jogo é um sistema vivo, quase um ecossistema perfeito de mecânicas que se conversam. Farming, mineração, combate, relacionamentos, exploração, customização… Cada atualização, como a 1.7 que está por vir (com novos diálogos de casamento e crianças que, finalmente, poderão ser mais que móveis animados), é um DLC gratuito de fidelidade. O jogo cresceu conosco. Uma sequência não teria o luxo da simplicidade inicial. A expectativa seria por uma revolução, não uma evolução.

O “Save File” da carreira e a coragem de reiniciar

Aqui a coisa fala diretamente com a nossa vida. A decisão de Barone de, em vez de forçar um Stardew Valley 2 naquele momento, partir para um projeto completamente diferente – o Haunted Chocolatier – é uma lição de carreira e autoconhecimento.

Quantas vezes nós, jogadores e profissionais, ficamos presos à “saga” do nosso primeiro sucesso? Seja no trabalho, nos estudos ou até nos hobbies, a pressão para replicar o que deu certo é enorme. Barone olhou para o save file da carreira dele, viu que estava prestes a entrar em uma repetição cansativa (“mais do mesmo”), e teve a coragem de criar um novo personagem. Abriu um jogo novo.

Imagem: divulgação/Haunted Chocolatier

Haunted Chocolatier é o seu “New Game+”, mas em uma narrativa diferente. Mantém a essência (a arte, a música, o cuidado com os detalhes), mas troca a enxada pelo balcão de doces e a melancolia rural por um tom fantasmagórico. É arriscado? Claro. Mas é esse risco que mantém a chama acesa. Nos ensina que, às vezes, a melhor forma de honrar um legado não é perpetuar ele em uma sequência direta, mas evoluir como criador e oferecer algo novo com a mesma alma.

Imagem: Divulgação/Stardew Valley

A colheita do mundo real: o que Stardew Valley nos ensina fora da tela

E é isso que levo pra vida, e convido vocês a refletirem também. Stardew Valley, no fim das contas, é um jogo sobre escolhas e consequências de longo prazo. Você não colhe um Cauliflower em um dia. Não conquista o coração do Harvey com dois presentes qualquer. É sobre persistência, cuidado e investimento contínuo.

Fora do jogo, é a mesma coisa. Nossas “fazendas” são nossos projetos, relacionamentos, saúde e carreira. A atualização 1.7 da sua vida pode ser aquele curso novo, a terapia ou a decisão de passar mais tempo com a família. São patches que melhoram a experiência, mas a base do jogo continua sendo você.

A possível sequência, então, vira uma metáfora poderosa: quando é hora de seguir para um novo “mapa” na vida real? Quando a rotina em “Pelican Town” – seu trabalho estável, seu círculo social de sempre – já não oferece mais os desafios e a novidade que te animavam? E se for preciso deixar personagens queridos da sua história para trás para escrever um novo capítulo? É assustador, mas, como Barone sugeriu, pode ser incrivelmente revigorante.

No final da jogatina, quando desligamos o console ou fechamos a Steam, fica a questão que Stardew Valley e seu possível sucessor nos colocam: estamos apenas administrando a fazenda que nos foi dada, ou temos coragem de sondar as terras inexploradas do nosso próprio catálogo de possibilidades?

A comunidade de Stardew Valley permanecerá forte, não porque um “2” possa ou não vir, mas porque o primeiro jogo plantou algo raro: a sensação de lar. E lar, no fim das contas, é um save point que a gente carrega no coração, pronto para ser acessado quando o mundo lá fora ficar muito barulhento. O futuro é uma incógnita, mas enquanto houver sementes na bolsa e energia na barra, sempre haverá um novo dia para começar.

Até a próxima, e lembrem-se: não importa se é em Pelican Town ou em qualquer outro lugar, reguem suas parsnips da vida.

Robson Moretão

Um maluco por games desde sempre – há mais de 30 anos! Sou fissurado em histórias incríveis, desafios “impossíveis” e gráficos realistas. Aqui, na minha coluna, vou falar sobre o avanço desta indústria fantástica e seus desdobramentos.

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