O divórcio entre a IA generativa e os desenvolvedores

CAPA

Por Robson Moretão

E aí, pessoal. É o Robson Moretão aqui, de volta na coluna ALÉM DOS CONTROLES. Depois de mais de 20 anos cobrindo essa indústria, já vi de tudo: a ascensão dos 3D, a guerra das consoles, a explosão dos jogos como serviço e o nascimento dos streamers. Mas poucos assuntos geram um split tão profundo, um debate tão acalorado quanto o que estávamos tendo hoje. Estou falando da Inteligência Artificial (IA) Generativa nos games.

Pensem comigo: lembra daquela sensação épica de explorar Hyrule pela primeira vez em Ocarina of Time, ou de ficar boquiaberto com os detalhes de Rapture em BioShock? Cada textura, cada fala de NPC, cada trecho da trilha sonora era assinado, era intencional, fruto de um time de artistas, designers e programadores. Agora, imagine um futuro onde esses mundos são gerados “em tempo real” por uma IA generativa, com diálogos criados sob demanda e quests infinitas. Parece saído de um episódio de Black Mirror ou do jogo SOMA, onde a linha entre a criação humana e a sintética se dissolve. Pois esse futuro não é mais um conceito distante – é um presente em disputa. E, para minha surpresa (ou não), quem está segurando o controle e pressionando “pause” nessa revolução são justamente os desenvolvedores.

Por que o chão de fábrica diz “não” ao prompt mágico?

Os dados são claros e vindos de uma das fontes mais respeitadas que temos: a Game Developers Conference (GDC). Na pesquisa anual de 2025, um número impressionante e crescente de desenvolvedores – 52% – considera a IA generativa prejudicial para a indústria de games. É um salto e tanto: era 18% em 2024, 30% em 2025. E quem está no olho do furacão, sentindo na pele o impacto? Os artistas, designers, escritores e programadores – o coração e a alma de qualquer estúdio.

Aqui, a gente precisa abrir um parêntese importante. Não estamos falando da IA que sempre esteve nos games, como a dos inimigos em FEAR (que ainda é fantástica) ou a dos comportamentos dinâmicos em The Sims. Essa é a IA generativa: aquela que, a partir de um prompt, cria texto, código, arte 2D, 3D, música, voz. É a ferramenta que promete “automatizar a criatividade”.

E quem está mais empolgado com essa promessa? A pesquisa é cristalina: 58% dos “profissionais de negócios” e 47% da alta gerência. São os mesmos cargos que, muitas vezes, lidam com planilhas, prazos apertados e a pressão por eficiência e redução de custos. Enquanto isso, na linha de frente do desenvolvimento, apenas 29% dos devs adotam a ferramenta. É um fosso gigante entre o “chão de fábrica” e o “andar de cima”.

Os entusiastas falam em produtividade: usar IAs para pesquisas, responder e-mails (47%), escrever trechos de código (47%) ou quebrar tarefas complexas. Parece prático, não? Mas o argumento dos críticos vai muito além de “medo de ser substituído”. É uma questão ética profunda. Como disse um dos depoimentos anônimos da pesquisa, com uma ironia digna de The Thing (A Coisa, citando o clássico de John Carpenter com Kurt Russell): essas ferramentas de IA generativa foram construídas sobre “plágio e roubo”. Elas são treinadas em milhões de obras de arte, textos e códigos, sem o consentimento ou remuneração dos criadores originais. É como se um NPC de Skyrim de repente começasse a recitar diálogos copiados de The Witcher 3, sem créditos nem royalties para a CD Projekt Red.

 Como essa guerra chega à sua tela e à sua vida

E o que isso tem a ver com você, jogador na sua cadeira gamer? Tudo. Vamos pensar em situações reais.

Você já ficou frustrado com um jogo “vazio”, bonito por fora mas sem alma por dentro? Mundo abertos gigantescos com paisagens repetitivas (Assassin’s Creed já ouviu essa crítica) ou diálogos genéricos que parecem tirados de um gerador de clichês? A adoção em massa e apressada da IA generativa, motivada por cortes de custos e não por criatividade, pode ser a receita para uma enxurrada de jogos assim. A assinatura autoral, o toque humano que faz você se conectar com a história de um The Last of Us ou se maravilhar com a direção de arte de um Hollow Knight, fica em risco.

Por outro lado, pense na sua própria vida. Você já usou um chatbot para ajudar a estruturar um e-mail difícil ou uma ferramenta de texto para dar um “start” num trabalho? A IA está aí e ignorá-la é ingenuidade. A questão é como usamos. No seu trabalho ou estudos, você simplesmente copia e cola o que o ChatGPT dá ou usa como um ponto de partida, um “bloco de notas” inteligente para sua própria criação? A mesma lógica se aplica aos games: a ferramenta pode ser um auxiliar poderoso para prototipagem rápida ou gerar variações de texturas em uma parede, mas não pode substituir a visão do diretor criativo, a emoção do compositor ou a nuance do roteirista.

A escolha que a indústria fizer agora vai moldar os jogos da próxima década. E você, como consumidor, tem poder. Sua voz, suas críticas, o que você valoriza numa review – a autenticidade – importam.

Escolher entre a fábrica de algoritmos da IA generativa e a forja da criatividade

Quando você desligar o console ou o PC hoje, depois de mais uma sessão na sua franquia favorita, reflita: o que você está realmente valorizando naquela experiência? A eficiência do processo de desenvolvimento ou o resultado final, carregado de intenção humana?

Estamos em um ponto de bifurcação, como naquelas missões que definem o final do jogo. Um caminho leva a uma fábrica de entretenimento automatizado, onde os mundos são gerados em massa e as histórias são calculadas por IA generativa. O outro caminho, mais desafiador, integra a tecnologia como uma ferramenta a serviço da visão humana, potencializando a criatividade sem apagá-la.

No fim, a pergunta que fica é: queremos jogos que pareçam ter sido feitos por uma inteligência artificial… ou por inteligências, no plural, passionais, imperfeitas e brilhantemente humanas? A resposta está tanto nos corredores dos estúdios quanto no seu controle.

Imagem principal gerada por IA

Robson Moretão

Gamers estão numa encruzilhada: jogos produzidos por artistas, designers e programadores ou por IA generativa? A indústria quer IA, para cortar custos, mas a produção fala em "plágio e roubo".

Um maluco por games desde sempre – há mais de 30 anos! Sou fissurado em histórias incríveis, desafios “impossíveis” e gráficos realistas. Aqui, na minha coluna, vou falar sobre o avanço desta indústria fantástica e seus desdobramentos.

Ah, e se quiser ficar por dentro das últimas novidades dos games e e-sports diariamente, cola comigo nas minhas redes sociais: TwitterTiktok, e Instagram

Leia todas as colunas sobre Games

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse