Por trás dos palcos e das telas, trabalhadores culturais invisíveis sustentam a economia criativa, mas seguem sem reconhecimento, proteção e voz
Por Edra Moraes
Quando um show acontece, o público vê o artista. Quando uma campanha publicitária vai ao ar, o consumidor vê a marca. Quando um filme estreia, a crítica fala do diretor. Mas quem carrega o equipamento, organiza a produção, negocia o contrato, coordena a equipe e apaga o incêndio nos bastidores? Esses trabalhadores da Cultura existem e eu sei bem como vivem, porque passei quase quatro décadas ao lado deles.
Comecei em 1986, na produção do programa Perdidos na Noite, da Rede Bandeirantes. De lá para cá, transitei pela publicidade, pelo jornalismo, pela indústria da beleza — com passagens pela Folha de Londrina e pelo Boticário e mantive sempre uma atuação paralela na arte e na cultura, como produtora e escritora. Esse trânsito me deu um lugar privilegiado de observação: não enxergo a economia criativa apenas como campo simbólico ou econômico, mas como espaço concreto de relações de trabalho com suas hierarquias, suas injustiças e seus silêncios.
O ponto que ninguém mede
Muito se fala do peso econômico da cultura. Instituições como a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro já mapearam o potencial do setor em geração de emprego e renda. O problema é o que esses números deixam de fora: as condições em que esse trabalho acontece.
A economia criativa é medida pelo seu impacto, mas raramente analisada a partir das experiências de quem a produz. Nenhuma pesquisa oficial pergunta se o técnico de som foi tratado com respeito. Nenhum edital exige que se informe quantas horas trabalhou o produtor de eventos. Esse silêncio não é neutro, é uma escolha que tem consequências.
Quem sustenta o espetáculo?
Comecei a escrever este texto a partir de uma escuta. Em um grupo de trabalho, uma profissional da cultura compartilhou uma queixa marcada por frustração e sentimento de desrespeito. A partir daí, outras conversas aconteceram e o padrão se repetiu. Trabalhadores da área descrevendo ambientes que reproduzem desigualdade, informalidade e agressividade com uma naturalidade que deveria nos incomodar muito mais do que incomoda.
Além das conversas com profissionais da área, fui buscar dados. E aí veio o choque: não temos pesquisa, não temos dados, não temos como analisar ainda. O trabalhador do chão de fábrica da cultura é invisível não só nos palcos é invisível também nas estatísticas.
Para nomear essa realidade, proponho a união deste “chão de fábrica da cultura”. Nós, produtores, técnicos, comunicadores, gestores, que tornamos possível qualquer obra ou evento, mas que vivemos à sombra do reconhecimento reservado aos artistas.
Políticas públicas, editais e discursos institucionais são construídos “a partir do artista”, como se toda a cadeia produtiva cultural simplesmente não existisse. O resultado é uma hierarquia simbólica que, na prática, legitima tratamentos muito desiguais entre quem está nos holofotes e quem está nos bastidores.
Quando a informalidade na cultura vira desculpa
Trabalhei nos dois mundos e posso comparar. No ambiente formal, com carteira assinada e departamento de RH, há regras, ainda que nem sempre cumpridas. No ambiente cultural, marcado pela lógica de projetos, contratos informais e ausência de proteção institucional, a urgência da produção, a escassez de recursos e a romantização da arte funcionam como justificativas para a sobrecarga e o desrespeito.
Há nas entrelinhas uma ideia de que “arte se faz com paixão”. Isto era excelente no século passado, o que garantia manter a produção artística na mão daqueles que não precisassem de dinheiro para viver. Uma casta superior, os ricos artistas.
Faz-se o trabalhador acreditar que sofrer pelo projeto é parte do compromisso com a obra e que reclamar é quase uma traição ao processo criativo.
Nesses casos, a violência não se apresenta como exceção. Ela faz parte do funcionamento cotidiano e todo mundo age como se fosse normal.

Uma categoria sem movimento
Há uma contradição que me inquieta há anos: o setor cultural historicamente se mobiliza por pautas sociais amplas, mas tem enorme dificuldade de se organizar em torno das próprias condições de trabalho.
Não há sindicato forte, não há identidade coletiva consolidada, não há agenda comum entre os trabalhadores que sustentam a cadeia produtiva da cultura. Esse vazio é exatamente o que permite que as práticas precarizantes se perpetuem sem resistência organizada.
O que precisa mudar
A economia criativa precisa ser repensada a partir de dentro. É necessário deslocar o foco do produto e do artista para incluir as relações de trabalho e as estruturas de poder que organizam o setor, com métricas que contemplem condições de trabalho, políticas que reconheçam toda a cadeia produtiva e uma ruptura com a naturalização de hierarquias que tratam alguns como estrelas e outros como mão de obra descartável.
A economia criativa não pode ser pensada apenas a partir de sua dimensão simbólica ou econômica. Ela nasce no chão de fábrica e é a partir dele que deve ser compreendida, analisada e transformada.
Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa.
Prêmios: Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020.
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