Por Edra Moraes
Esta semana vou falar de algo que me dá muito prazer: o novo formato de coletivos que admiro, acompanho e defendo como a tônica da produção artística contemporânea. Acredito que os coletivos representam uma virada estrutural no modo de criar, gerir e sustentar projetos culturais, especialmente quando falamos de editais de fomento e outras formas de apoio.
São formações mais horizontais, menos hierárquicas, movidas por interesses genuínos na área. Nos coletivos que participo e observo, o protagonismo é compartilhado, as decisões são construídas em diálogo e os processos ganham força justamente pela diversidade de olhares.
Sei que desenvolver um novo olhar e adotar uma prática realmente colaborativa não é algo automático, mas um exercício consciente e desafiador. Desaprender posturas centralizadoras, dividir protagonismos e construir em rede exige maturidade, escuta e disposição para a mudança.
Por isso, nosso destaque desta semana vai para o Coletivo Marianas. Participar do Coletivo Marianas é vivenciar algo raro: um grupo coeso, interessado e profundamente participativo, condição essencial para que, em pouco tempo, se consolidasse como coletivo Ponto de Cultura.


Acompanho o crescimento do Marianas com admiração e aprendizado constante, seja como escritora, parceira de projetos ou público de seus muitos eventos. Mas coesão não nasce do acaso.
Crescimento não acontece sem método. E movimentos não se sustentam sem liderança. Ao contrário do que muitos pensam, a liderança existe em um coletivo, e é geralmente ela quem assume o papel de locomotiva. Foi para entender essas engrenagens invisíveis que conversei com a idealizadora do Coletivo Marianas, Andreia Gavita.
A liderança de articulação do Coletivo Marianas

Quando você criou o Coletivo Marianas, qual era a necessidade mais
urgente?
A necessidade mais urgente era existir. Era ver eventos literários com palcos masculinos e plateias femininas e sentir um incômodo profundo. A necessidade era de protagonismo.
O coletivo nasceu estruturado ou intuitivo?
Totalmente intuitivo. Foi um convite entre mulheres para ocupar espaço juntas. O primeiro encontro foi afetivo, aberto, sem plano de negócios: leitura de textos, apresentação pessoal e escuta coletiva.
Em que momento você percebeu que era um movimento?
Quando autoras começaram a formar redes entre si, o público passou a buscar acolhimento além da literatura e outros coletivos do Brasil começaram a nos procurar.
Qual a força simbólica do nome “Marianas”?
É uma escolha política e afetiva. Homenageia Mariana Coelho, pioneira do feminismo no Brasil, e, ao pluralizar, transforma o nome em arquétipo: todas as mulheres que escrevem podem se reconhecer nele.
O que sustenta o coletivo no dia a dia?
Comunicação clara, divisão de tarefas por afinidade, reuniões periódicas e escuta ativa. A organização fortalece, não enfraquece, o espírito coletivo.
Existe metodologia para acolher novas integrantes?
Existe escuta. Apresentamos a história, convidamos para eventos e o acolhimento acontece de forma gradual, respeitando o tempo e o desejo de cada mulher.
O crescimento foi planejado?
Foi orgânico. Nunca houve meta numérica. Crescemos conforme a demanda de autoras e a resposta do público.
O que impediu a dispersão do grupo?
Afeto aliado à ação. Não nos reunimos apenas para conversar, mas para produzir livros, eventos e projetos concretos. O fazer coletivo gera coesão.
Como você define sua liderança?
Uma liderança de articulação, não de comando. Meu papel é conectar pessoas, ideias e necessidades, provocando caminhos e facilitando processos.
O grupo já conquistou autonomia?
Sim, em parte. Muitas autoras já organizam projetos e representam o coletivo. Ainda sou uma referência pela dedicação integral, mas hoje existe uma coordenação compartilhada.
Como lidam com conflitos internos?
Com conversa franca e escuta. O conflito é parte do crescimento, não o fim dele. Exige coragem para falar e humildade para ouvir.
Qual foi o momento mais difícil?
A pandemia. Perdemos os espaços físicos, nossa maior potência. Foi um período duro, mas também de reinvenção no digital e fortalecimento da rede de apoio.
Como o coletivo se sustenta financeiramente?
Por um ecossistema: contribuição voluntária das integrantes, venda direta de livros em feiras e fomentos culturais. Cada autora vende sua própria obra, com autonomia, enquanto o coletivo garante estrutura e logística.
A certificação como Ponto de Cultura mudou algo?
Mudou tudo. Trouxe responsabilidade, planejamento anual e prestação de contas. Saímos de iniciativa independente para uma ação reconhecida institucionalmente.
O coletivo é movimento artístico ou organização cultural?
Os dois. O movimento é a alma; a organização é o corpo que sustenta essa alma. Um não existe sem o outro.
O que mudou na gestão ao longo do tempo?
Saímos do afeto intuitivo para um modelo que mantém o afeto, mas incorpora planejamento, registros, divisão de tarefas e limites para evitar sobrecarga.
Quais pilares são indispensáveis para criar um coletivo?
Propósito claro, afeto como método e ação concreta. Sem materialização em projetos, o coletivo vira apenas um grupo de conversa.
O afeto é suficiente para sustentar um coletivo?
É a base, mas não basta. É preciso método, organização, clareza de papéis e recursos financeiros para garantir continuidade.
O que imagina para os próximos cinco anos?
Um Ponto de Cultura ainda mais consolidado, mais autoras publicadas, maior alcance, sede física e autonomia plena, com gestão compartilhada e impacto nacional na literatura.
Interesses coletivos genuínos
A entrevista revela que o coletivo nasceu da urgência de existir, de ocupar espaços literários historicamente marcados por desigualdades. Ao longo do tempo, incorporou organização, metodologia, divisão de tarefas, planejamento e responsabilidade institucional.

Afeto e ação caminharam juntos. O coletivo não se reúne apenas para conversar, mas para produzir livros, eventos, projetos e políticas de presença. A liderança é de articulação, não de comando.
Agradeço a Andreia Gavita pela generosidade da entrevista e pela transparência ao compartilhar processos, desafios e aprendizados.
Parabenizo o Coletivo Marianas pela trajetória consistente, pela coragem de ocupar espaços e pela capacidade de transformar afeto em ação concreta.
Que sua experiência inspire outros grupos a compreender que a base de um coletivo sólido não está apenas na afinidade, mas na existência de interesses coletivos genuínos aqueles que colocam o projeto comum acima das vaidades individuais e constroem, de fato, um futuro compartilhado para a cultura.
E, se você integra um coletivo e gostaria de compartilhar sua experiência, entre em contato, fortalecer essas redes é parte essencial desse novo momento cultural.
Fotos: Divulgação Coletivo Marianas
Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa.
Prêmios: Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020.
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